sábado, 21 de janeiro de 2012

LIÇÕES DE ALQUIMIA (conto do livro NOITES SEM FIM)

LIÇÕES DE ALQUIMIA
(noções de auto-ajuda)
(Do livro de contos NOITES SEM FIM)
[ainda não publicado]

(sugestões de um mago alquimista: “o fio da espada” ou “a lenda pessoal” ou “o pulo no escuro”, ou “o alvo”, ou...)
“Ajuda-te e o céu te ajudará! – disse, enfezado, o profeta.”

Foi só depois de a companhia telefônica ter instalado a antena receptora no ponto mais alto do morro que os rapazes descobriram o pico maneiro, ou, como eles o apelidaram - o cocuruto. Os homens vieram em uniformes, limparam o terreno, furaram uns buracos, fizeram uma fundação e um piso de concreto, construíram o que chamaram de casa de força – um cômodo de tamanho médio com uma porta de ferro e uma série de pequenas janelas gradeadas, também de ferro e, depois – BAM! – como que da noite pro dia, levantaram ao lado a enorme antena, cheia de penduricalhos. Mas, antes de irem embora, instalaram a rede elétrica, ligaram a antena na rede, levantaram e rebocaram com massa muito forte um alto e reforçado muro de lajotas em volta da estrutura e da casa, encimado por arame farpado e uma cerca eletrificada, porque, como afirmaram, se não construíssem e eletrificassem o muro, a antena logo começaria a sumir do morro e a aparecer, aos pedaços, nas mãos dos compradores de ferro velho, de sucata; então, circundaram o muro com um largo passeio de cimento, pintaram de branco a casa de força e o muro, de cinza-escuro a porta e as janelinhas, e se mandaram.
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Como ratos atraídos por um monte de entulhos, os rapazes – “a turma”, como eles próprios se denominavam –, não demoraram a dar pelo local da antena. Era um lugar aprazível, limpo, e havia toda a ventilação e todo o sossego de um alto de morro sem moradores. Bastava subir uns trezentos metros de trilhas, pisando em inúmeros buracos escavados pelas águas das chuvas, tropeçando em touceiras ressecadas de capim, - enfim era preciso andar em um terreno muito irregular,- mas tudo valia a pena se o ganho fosse sair de perto das comadres faladeiras, dos velhos futriqueiros, que habitavam os barracos do rabicho de terra nua. “Rabicho” não era força de expressão; era mesmo o apelido que os moradores haviam dado ao prolongamento de terra morro acima, ao longo do qual eles, após irem abrindo aos poucos uma trilha sinuosa, ergueram os barracos. A rua terminava, de fato, a uns tantos metros de onde principiara a invasão de barracos. Havia um campo de futebol cercado por um alambrado e, ao lado, o temor de todos os moradores do morro e de todos os maus elementos da cidade: o presídio novo, grande, ainda cheirando a tinta recente, cor cerâmica, chamado pejorativamente de “caixotão.” A rua terminava ali, logo no final do campo, depois, vinha a ruela: o “Rabicho.”
“Sim, senhor, é muito bom aqui, é ótimo, a brisa batendo no corpo da gente, na cara da gente, balançando os pelinhos do corpo, e o sol maneiro!” – Técio disse, enquanto os outros rapazes, alguns ainda nem tão rapazes – garotos -, se esparramavam sobre o passeio, se encostando à parede da casa de força. - “e deitar na grama também é um programa pra lá de bom!”
Técio não gostava destas coisas - de acordo com ele, ‘comuns’–, ações que muita gente praticava e, ele pensava, não levavam ninguém a lugar nehum, não levavam a nada. Só os patrões é que levavam vantagem.
“Só exploração! Chateação! Tolerar preconceitos?! Eu não! Vão pro inferno! Os caras ficam é dando o tempo deles de graça pros outros, pros patrões. E ainda têm de tolerar um monte de abusos. Como aquele operário, um pintor de paredes, que mora num barraco, no Rabicho logo ali embaixo. Gerson o nome dele. Vive borrado de tinta e de pó de massa e anda de sandálias de borracha. Tá sempre correndo atrás de alguma coisa pra fazer. Trabalha, trabalha, mas mora num barraco. Barraquinho mesmo! Amigo meu. Conversa comigo vez ou outra, se senta comigo pra trocar idéias. Brinca comigo. Me acha vagabundo e diz: “Você pra mim é doido!” Ele, às vezes, atravessa o morro, o cocuruto, pra ir trabalhar no condomínio grande ali do outro lado da cidade. Quando chamam ele pra trabalhar lá. Passa por aqui. Sempre passou. E pára pra trocar idéias. Gente boa. Ele não joga no meu time, é careta, muito careta, mas eu gosto dele. E ele me conta as coisas. O que as pessoas fazem com ele, com os trabalhadores, nas casas e nas obras. Mesmo nas ruas. Os engenheiros e os encarregados. Os patrões e as patroas. As mulheres parecendo galinhas chocas. Às vezes, são as empregadas é que enchem o saco, as domésticas: ‘Não quero que entrem na cozinha; acabei de lavar e enxugar o chão agora mesmo!’ ‘Não precisa pedir café; quando estiver pronto, eu mesma entrego lá fora. Eu vou levar lá!’ Isso, quando ganham café ou qualquer outra coisa! Se estiver trabalhando dentro de casa, então... sai da frente! É só: ‘cuidado pra não sujar os meus móveis! Sujeito porco, sô!, é tinta pra tudo enquanto é lado! Não vá arranhar o meu sinteco!’
E quando acontece de ele trabalhar em condomínios fechados ou prédios de muitos apartamentos onde as madames costumam fazer ginástica nas manhãs!? Os porteiros vão logo avisando: ‘--- as donas fazem ginástica de manhã nas quadras de esporte ou no salão de festas e elas não gostam que os empregados olhem pro lado delas, não!’ O cara fica puto! Umas mulheres pra lá de esquisitas: coroas, branquelas, barrigudas, bundudas; os peitos caídos, coxas e pernas lotadas de varizes e o rabo cheio de celulite! Tudo comida de gato: muchiba! Tudo boi do cu branco! Tudo terceira idade! E ele conta como as esposas, as amantes dos caras, dos operários, falam com eles quando eles chegam mortos de cansados em casa. Dizem que, se ‘esses bostas’ não derem um jeito de conseguir dinheiro suficiente pra dar conforto pras famílias deles, fazer moradias decentes, dar alimentação e vestimentas de boa qualidade, elas vão sair pra rua, arranjar outros homens, dar a xoxota ou mesmo o rabo pra eles, chupar até o pau deles se for preciso, pra aumentar a renda da família! Elas nem sabem das dificuldades que os caras enfrentam pra conseguir algum tipo de serviço, algum biscate! E algumas ainda reclamam com as amigas que os maridos são bundas moles, frouxos na cama. Que eles ficam esmolando o que fazer, esmurrando portas das pessoas que têm algum serviço, fazem o serviço – se o conseguem! -, ganham uma merda de salário – isso, quando recebem! - se matam de trabalhar, chegam em casa esfalfados, mortos em pé, e na hora do bom – nada! O pau não sobe, ou só fica de meia engorda, e é aquele baixo astral – um saco! E muitos deles chegam mortos de bêbados, putos da vida, e descarregam toda a ira sobre a família. E é por isso que algumas das mulheres dos caras dão mesmo pra outros homens. ‘Sem um peru eu não fico!’ – afirmam.”
A mãe de Gerson também tinha ficado sem peru. “Seu homem”, que nunca fora de resolver coisa alguma, desapareceu de repente e nunca mais deu as caras. E Técio achava graça: “Eu vou te contar, cara, não sei como o sujeito pôde se casar com uma mulher daquela. Magrinha, muito magra; não tem carne nenhuma pra gente pegar. Não tem pernas, não tem peitos, não tem bunda. Não tem nada! Nunca teve. Osso puro! E baixa; baixinha – um cisco! Ele, o marido, tinha mais é que sumir mesmo! Mas só tem uma coisa: ela levanta cedo todos os dias pra ir à missa. Vai na igreja do bairro ali do lado. É perto. Daqui dá até pra ver. E, depois, vai direto pro serviço. Trabalha de diarista. Nunca falta trabalho pra ela. Vai ver que é por isso que o filho é direito assim. A mãe dá o exemplo. E Gerson brinca. Diz que o pai foi comprar cigarros e se perdeu na volta. Que um dia ele aparece. Mas o homem às vezes é visto na cidade. Mas não aqui nas ruas do bairro ou no Rabicho. E não dá um pingo de confiança pro filho! Também, não faz falta nenhuma.”
A mudança tinha começado como Sebastiana contou. Uma colega veio à porta do barraco lhe dizer que havia uma mulher interessada em uma empregada. Não era pra ficar direto, apenas limpeza três vezes por semana, e passar algumas peças de roupa. Queria uma moça responsável, que chegasse cedo ao serviço, que fosse limpinha e esperta – boa de serviço. Se ela desejasse, se estivesse com coragem de “enfrentar a onça”, podia perfeitamente ir com ela que seria apresentada e, sem dúvida, conseguiria o emprego. Sebastiana quis, ela não era ‘boa de serviço’, não era ‘esperta’ não era nada disso, mas estava precisando de alguma ocupação, estava andando sempre sem dinheiro. Ela ia. Ia fazer força pra tolerar. Foram. E, logo na manhã do terceiro dia, começo de serviço, quando Sebastiana já estava principiando a tomar raiva da patroa, como é norma acontecer com as empregadas domésticas, raiva por as patroas ficarem corujando o tempo inteiro, tomando conta pra ver se as empregadas estão lavando as panelas e vasilhas de acordo, estão limpando o chão, os banheiros e as vidraças no capricho, se estão fazendo tudo direitinho, raiva daquele modo de a patroa ficar olhando pra cara dela, pro corpo dela com o rabo dos olhos, a dona lhe pediu que se sentasse ao seu lado, no sofá, lhe passou o braço ao redor dos ombros, e disse: "Você é uma morena muito bonita, menina, eu tenho te observado, e acho que vamos nos dar bem, muito bem mesmo!” e trocaram idéias por certo tempo. E Sebastiana acabou indo com a cara dela. Após mais alguns dias de convivência, a mulher resmungou: “Se eu tivesse seu corpo, moça, sua beleza, sua cor, a sua idade, eu não teria entrado na gelada em que entrei. Não teria me casado com a merda de homem que encontrei numa péssima hora, - Deus que o tenha no mais profundo dos infernos!-, nem teria tido filhos, e não estaria nesta situação em que tô hoje. Tô separada, sem marido, com dois filhos pequenos, tendo que me virar pra arranjar grana pra tratar deles e de mim!” E de fato se deram bem.
“O que você pensa disso, Tetéu? Não é bacana? Você não acha que...?”
Técio não achava nada; ele não estava nem um pouco interessado nas palavras da irmã. Pra começo de conversa, nem casa ele tinha. Morava num barraco, como ela bem sabia. Tava bem ali em baixo! A família tinha vindo pulando de morro em morro, de barraco em barraco, de ruela em ruela, e tinha aportado ali. E se agarrara. E ela também tinha morado lá. Durante quantos anos ele nem sabia ao certo. Um monte de anos. Quatro cômodos pequenos, de paredes tortas, mofadas, um banheiro de fossa no terreiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, do tamanho do terreiro, e um pequeno fogão a lenha, feito de barro, escorado numa parede externa. Teto de telha de amianto, chão de cimento queimado. Lagartixas, formigas, baratas, traças e os mosquitos - aos magotes! -, passeando por todos os cantos. E, em época de chuva forte, as águas escorrendo pelas paredes. Assim eram todos os barracos do Rabicho. Não era à-toa que os rapazes da turma estavam se amontoando no cocuruto. Ou então ficavam pelas ruas. Ficavam “por aí”. Pra sair fora daqueles casebres deprimentes. Harmonização de ambientes! Como era mesmo o nome do negócio? Feng shui! Isso mesmo! Hum!
Vacilando em sua vagabundagem, Técio achava que às vezes era melhor ter um emprego, ou uma profissão, e uma renda, mesmo que pequena, e poder comprar o que se quisesse (desde que o dinheiro fosse suficiente) sem incomodar ninguém nem ficar servindo de diversão e assunto pros outros. “Perguntar os preços, regatear, e comprar – e não ficar devendo filho da puta nenhum! Nem um tostão!” Mas ele não tinha esse costume: “Trabalhar, cara?!”
Tiana, desconsiderando a rudeza do irmão, disse que a patroa, além do Feng shui, também era estudiosa de livros de auto-ajuda e estava lhe dando muitas dicas valiosas de como se dar bem na vida, de como alcançar a “platitude”, ganhar dinheiro, estabelecer boas amizades, ter as coisas – ser feliz. E tudo o que ela estava ouvindo, aprendendo, seria de muita utilidade também pra Tetéu, ela tinha certeza. E ela gostaria de lhe passar estas mensagens.
Mas ele já tentara fazer coisas diferentes. “Como da vez que fui trabalhar num grande supermercado. Tirei as costeletas, os quatro brincos (bijuterias) das orelhas, aparei os cabelos, fiz a barba, tomei banho, escovei os dentes, vesti uma roupa decente, calcei sapatos limpos, cobri a tatuagem com a manga da camisa e - coisa que eu sabia ser muito importante – fiz um treino em voz alta, pra cortar as gírias e ficar desenvolto. Eu não podia usar linguagem de malandro! Queria estar apresentável. Minha intenção era trabalhar de entregador no caminhão e convencer o motorista a me deixar pegar no volante vez ou outra. Eu não sabia dirigir e precisava aprender, se quisesse dar saltos maiores algum dia, como tava planejando – roubar cargas. É um filão promissor, a gente vê isso aos montes na televisão. Os caras vão lá, tocaiam os motoristas, amarram eles no mato, e desaparecem com as cargas, com os caminhões. Vendem pros comerciantes. Muitos compram, vai ver alguns até encomendam cargas roubadas. Remédios, móveis, eletrodomésticos. Cargas de cigarros. É tudo coisa fácil de se vender. Gasolina. Pode-se até oferecer os caminhões de volta pros próprios donos deles mesmo, por um preço mais barato. Muitos assaltantes fazem isso; telefonam pras firmas e falam com os donos. Negociam com eles. E revendem os caminhões. Todo mundo fica satisfeito. Claro que não disse nada disso ao ser entrevistado. Desejava apenas o serviço; tava necessitado. Mas fui aceito provisoriamente como repositor de estoques nas gôndolas e prateleiras e entregador de folhetos quando houvesse necessidade, e não consegui passar disso. Recebi ordens de, quando saísse pra entregar folhetos, ir a todas as casas, de todos os bairros, mesmo os mais afastados, e enfiar eles nas caixas de correio, nas portas de garagens, que entregasse às pessoas nas ruas. E até comecei bem essa função. Enfiava as mercadorias nas gôndolas, depois, pegava aquela merda, muitos folhetos, e me punha a distribuir. Mas notei que as coisas não dariam certo. Primeiro, era muito trabalho. Dentro do supermercado, era o zunzum o dia inteiro. As pessoas esbarrando, perguntando, empurrando os carrinhos. Os encarregados e fiscais cobrando eficiência, pontualidade, atenção. Segundo, nas andanças, na distribuição de folhetos, que eram semanais, não haveria sapato que agüentasse, não haveria roupa que resistisse ao suor, pernas que suportassem andar por todas aquelas ruas, todos aqueles becos, morros e bairros, durante o dia inteiro. E o frio ou o calor!?” E Técio pediu uma bicicleta e roupas adequadas ao gerente e ouviu que não fazia parte da filosofia da empresa dar bicicletas ou vestes aos empregados. De mais a mais, ele teria de bater em todas as portas, pra que ele queria uma bicicleta? O negócio era andar! E o gerente ainda lhe avisou que os folhetos tinham de ser entregues o mais rápido possível. Se não conseguisse fazê-lo no prazo estipulado, durante o dia, que fizesse o serviço também à noite. As promoções tinham uma data definida pra acabar, como ele estava “careca” de saber. Era preciso desovar os estoques. “Falei: ‘ah, é?’ Fiquei pouco tempo, um mês e uns dias, passei a mão em meu salário, merreca, coisa pouca, nem disse que ia deixar o emprego, estava de experiência, porra! Vim pra casa, joguei os folhetos da ocasião num buraco, e nunca mais voltei lá. Eu não! Os folhetos estão ali em baixo até hoje, jogados dentro do buraco!”
Depois de Tiana descer o morro, Técio se esticou sobre o passeio e relaxou. Então, era assim o modo de a situação começar a ser transformada pra melhor? Desejar as coisas, pensar nas coisas, falar ‘mantras’ vezes sem fim?! Só ficar repetindo ‘carrão’, ‘mansão’, ‘motocão’, e troços do tipo?! E se aproximar das ‘pessoas de bem’, das ‘gentes boas’, pra extrair ‘fluxos positivos’ e assimilar ‘bons fluidos’ e ‘boas perspectivas de mudanças?’
“E será que funciona mesmo?” – ele se perguntou.
Então, Gerson observou:
“Sua irmã tá realizando a lenda pessoal dela, moço!”
“Tá sim. A dela e a da mulher que tá vendendo o corpo dela! A seta tá acertando o alvo!”
“Ela tá transformando a bocetinha dela em ouro!”
“Tá mesmo!”
“Acho que a bundinha também!”
“É isso mesmo!”
“Se duvidar, ela tá até batendo de boca no pau dos ‘clientes’ que a patroa tá arrumando pra ela!”
“É o mais certo!”
Sem medo de ser repreendido, Gerson acrescentou:
“Ela tá dando todos os buracos do corpo!”
“Tá aprendendo direitinho as lições do mago alquimista.”
Fazendo troça, Gerson disse:
“Tiana vai subir alto na vida, moço... e vai te deixar pra trás!”
“Vai sim... mas, se eu tivesse nascido com um rachado no meio das pernas, o negócio ia ser diferente.”
“Ah, ah!”
A época das chuvas, que não demoraram a chegar, trazendo com elas a ventania e o frio, mostrou o ponto fraco do cocuruto: não havia uma cobertura onde a turma pudesse se esconder. E a falta de proteção empurrou os rapazes de volta pro Rabicho barrento, pra dentro dos barracos. E, entrando em seu barraco, Tetéu deu de cara, outra vez, com os mosquitos, as lagartixas e as formigas que zanzavam pelas paredes trincadas, as traças que se arrastavam, vagarosas, pelas paredes mofadas e pelo chão sujo, as gotas de água pingando do velho telhado de telha de amianto. As águas, penetrando nas rachaduras, iam descascando a pintura antiga, de cal, provocando um odor estranho, desagradável, manchando as paredes, e tudo contribuía pra abalar o ânimo de Técio, pra lembrá-lo de quão fodido ele estava, de quão ninguém ele era. E as noites calorentas traziam o excesso de pernilongos e sanguessugas. E ele odiava tanto esses bichos...!
Se ela estava satisfeita, Técio não estava. E Técio não almejava ser sempre um ladrão de cargas. “Do mesmo modo que posso roubar cargas, posso também vir a ser um empresário de sucesso.” Era a outra parte do plano, o outro alvo: montar o seu próprio negócio. Roubar cargas até conseguir dinheiro suficiente e, depois, mudar de ramo: montar uma loja. E – como Tiana havia afirmado – “pensando grande”, enxergando apenas “à frente”, ele tentaria coisas maiores, montaria mais lojas e, em vez de roubar, passaria a encomendar cargas roubadas, mercadorias contrabandeadas, e iria abrindo mais lojas, compraria fazendas, sítios, ergueria prédios, abriria hotéis. E os alvos iriam se sucedendo. “A gente vê isso na televisão. Os caras vão fazendo as coisas, montando lojas, construindo prédios, acumulando bens, ficam muito ricos e, depois, são pegos e aparecem na televisão como receptadores de cargas roubadas, de mercadorias contrabandeadas. A cara mais lambida do mundo! E nem por isso vão presos. E menos ainda deixam de ser considerados ‘gente boa’, ‘pessoas de bem’, ‘cidadãos de conduta ilibada’, ‘membros influentes da sociedade’. Mas, no fim, não é nada disso! É tudo trambiqueiro! Tudo vagabundo! Tudo gentinha!”
Um velho preto está encostado ao balcão do boteco tomando uma pinga. É de manhã, o dia ainda nem acabou de nascer direito, e o preto já tá tomando uma pinga. E vai ver nem é a primeira! Mas, antes de se fixar no velho preto, Gerson decide considerar o dono do boteco. Lançando mão das teorias da ‘espada afiada e da lenda pessoal’ que a mana de Técio tem usado tão amiúde, Gerson tenta adivinhar se o dono do boteco realizou sua lenda pessoal. “Se não realizou, se não pôs sua espada pra funcionar até agora (e, se pôs, errou o alvo!) – pondera Gerson – é tarde; o homem já tá bastante entrado em anos, tá velho, a morte é seu destino mais provável em pouco tempo, ao invés de a realização de qualquer projeto pessoal.” O sujeito é gordinho, muchibento, barrigudo, claro, baixinho – ridículo! – pensa Gérson -, bigode espesso; usa óculos de grau, muitos cabelos lisos completamente brancos (deu sorte de não ter ficado careca!), a camisa de cor clara é puída e um tanto ensebada... Vai ver não tem dinheiro nem pra comprar roupas e nem pra pagar uma lavadeira. Seu boteco não é dos mais limpos. Só possui uma feia porta de madeira descascada. Há um buraco na porta, na parte de baixo, ao lado do portal, de tamanho suficiente pra dar passagem a um rato de bom corpo. Mesmo de certa distância, pode-se ver que há muitas manchas nas paredes, sinal de que elas não vêem pintura, nem mesmo uma mísera caiação, há bastante tempo. O balcão, além de antigo, tem um dos vidros partido. Há falhas na ocupação das prateleiras, o que leva Gerson a deduzir que o homem tá fodido, tá sem grana pra comprar mercadorias e talvez esteja até quebrando, esteja em vias de encerrar as atividades. Gerson pondera que o homem, o dono do boteco, não realizou sua lenda pessoal, não desembainhou a espada, teve medo do futuro - se é que vislumbrou algum futuro à sua frente alguma vez! - ficou receoso de pular no escuro. Não caminhou pra onde seu medo apontava. Preferiu ficar ali, na mesmice, pregado atrás do balcão daquele chiqueirinho, vendendo pinga e bebidas ordinárias, talvez fiado!, pra pretos velhos miseráveis e outros tipos de pinguços, ganhando uma ninharia ou coisa nenhuma, ao invés de dar um salto no nada, na incerteza. Não vencera na vida, certamente não chegara a lugar algum, pois, se o tivesse feito, seria proprietário de pelo menos um restaurante decente. Não foi um guerreiro; não era um vencedor.
“Sabe o que é?”
“O que é?”
“Você sabe que quando os operários ficam sabendo que tem algum serviço na cidade eles aparecem como formigas. Pedem o serviço, telefonam, entregam orçamentos, pedem engenheiros e mestres-de-obras conhecidos para os indicarem aos donos das obras, pedem às empregadas domésticas... as coisas acontecem assim, não é verdade?”
Era verdade

Duas coisas aborreciam Gerson ao falar com Darcy. Primeira delas, o hábito que o sujeito tinha de se debruçar sobre o rosto das pessoas, enquanto lhes punha a mão sobre um dos ombros e apertar, um gesto irritante. Segunda – e pior – Darcy, uma boca enorme (um bocão), cheia de pedaços de dentes podres, falava com a boca cheia de cuspe e lambuzava a cara dos interlocutores. Por isso, Gerson o evitava. Darcy, servente de pedreiro velho, moreno amarelado, a roupas em frangalhos, o boné sujo, as sandálias em petição de miséria. Um ‘bosta’, sua esposa diria, sem dúvida. Mas Darcy não se casara.
“Sabe o Tetéu, rapaz? Ou melhor: soube do Tetéu? aquele seu vizinho cheio de brincos e tatuagens e mutretas?”
As coisas tinham acontecido como o velhote contou mais tarde: “Eu sou viúvo, como vocês sabem. Viúvo e aposentado. Minha dona morreu há alguns anos; meus filhos, dois filhos, nem moram na cidade. Fico nesta casa, então; vivo sozinho, nos fundos do beco. É fundo de beco, é verdade, mas é bem conservado e a casa é boa; tem o terreiro e tá numa área central. Tá perto de tudo: farmácia, padaria, supermercado; perto de todas as comodidades. E o lotação pára logo na porta. Tenho tudo à mão. Então, foi assim: era fim de madrugada, umas cinco e meia da manhã. Eu tinha acabado de deixar a cama, tinha me levantado pra ir ao banheiro. É a primeira coisa que faço todos os dias. Me levanto e vou direto pro banheiro. Depois, vou à padaria. Compro um pão ou dois; tem dia que compro um litro de leite. Dá pra vários dias. Ponho na geladeira. Então, faço as compras e fico lá, batendo papo. Só por alguns minutos. Depois, volto pra casa. Coisas de velho. Nisso, ouvi um barulho de alguma coisa pesada caindo dentro do terreiro, perto do muro.
Me perguntou: ‘moço, você tem uma arma?’ Eu respondi: ‘não; não tenho’. “O que eu faria com uma arma, a essa altura da vida? Tenho setenta e dois anos!” “Pois você vai ganhar uma. Eu vejo nos jornais que os caras ‘stão roubando até caixas de fósforos na cidade, você mora sozinho, e ainda fica emprestando mixarias a juros. Algum vagabundo pode vir a saber e cismar que você é rico. Mesmo aqui na roça tá muito perigoso”.
Mas, aí está. O bicho me alertou pra presença dele e o moço se lascou. Talvez, se o cachorro não estivesse lá, ele tivesse me surpreendido. Mas eu não queria acertar o rapaz. De jeito nenhum! Queria só assustar ele. E este moço devia estar mesmo precisando de grana: ele saltou por cima dos cacos de vidro que mandei colocar sobre o muro. Sobre toda a extensão do muro! E este muro é bastante alto. Depois que ele caiu ferido, o pessoal que tinha sido alertado pelo tiro, o pessoal que vem cedo à padaria, tirou a touca ninja dele e viu que era este rapaz. Era conhecido. Não conhecido meu. Disseram que não era gente boa, não. Vivia de trambique, de rolos. Muita gente já conhecia ele”.
“Tetéu tava como umas conversas esquisitas! Uns papos furados, moço. Tava falando muito numa tal de ‘quimia’. Disse ele que ia transformar a vida dele em ouro! Que ia voar e dar um pulo no escuro! ‘magina! Eu acho que ele tava era pitando e cheirando as ‘coisas’ demais! Tava ficando maluco! Agora ficou tudo escuro mesmo pra ele! Ele não tá enxergando nada!” – e riu, - hi, hi! - a boca enorme, bocão, cheia de pedaços enegrecidos de dentes e de cuspe.

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