LIÇÕES DE ALQUIMIA
(noções de auto-ajuda)
(Do livro de contos NOITES SEM FIM)
[ainda não publicado]
(sugestões de um mago alquimista: “o fio da espada” ou “a lenda pessoal” ou “o pulo no escuro”, ou “o alvo”, ou...)
“Ajuda-te e o céu te ajudará! – disse, enfezado, o profeta.”
Foi só depois de a companhia telefônica ter instalado a antena receptora no ponto mais alto do morro que os rapazes descobriram o pico maneiro, ou, como eles o apelidaram - o cocuruto. Os homens vieram em uniformes, limparam o terreno, furaram uns buracos, fizeram uma fundação e um piso de concreto, construíram o que chamaram de casa de força – um cômodo de tamanho médio com uma porta de ferro e uma série de pequenas janelas gradeadas, também de ferro e, depois – BAM! – como que da noite pro dia, levantaram ao lado a enorme antena, cheia de penduricalhos. Mas, antes de irem embora, instalaram a rede elétrica, ligaram a antena na rede, levantaram e rebocaram com massa muito forte um alto e reforçado muro de lajotas em volta da estrutura e da casa, encimado por arame farpado e uma cerca eletrificada, porque, como afirmaram, se não construíssem e eletrificassem o muro, a antena logo começaria a sumir do morro e a aparecer, aos pedaços, nas mãos dos compradores de ferro velho, de sucata; então, circundaram o muro com um largo passeio de cimento, pintaram de branco a casa de força e o muro, de cinza-escuro a porta e as janelinhas, e se mandaram.
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Como ratos atraídos por um monte de entulhos, os rapazes – “a turma”, como eles próprios se denominavam –, não demoraram a dar pelo local da antena. Era um lugar aprazível, limpo, e havia toda a ventilação e todo o sossego de um alto de morro sem moradores. Bastava subir uns trezentos metros de trilhas, pisando em inúmeros buracos escavados pelas águas das chuvas, tropeçando em touceiras ressecadas de capim, - enfim era preciso andar em um terreno muito irregular,- mas tudo valia a pena se o ganho fosse sair de perto das comadres faladeiras, dos velhos futriqueiros, que habitavam os barracos do rabicho de terra nua. “Rabicho” não era força de expressão; era mesmo o apelido que os moradores haviam dado ao prolongamento de terra morro acima, ao longo do qual eles, após irem abrindo aos poucos uma trilha sinuosa, ergueram os barracos. A rua terminava, de fato, a uns tantos metros de onde principiara a invasão de barracos. Havia um campo de futebol cercado por um alambrado e, ao lado, o temor de todos os moradores do morro e de todos os maus elementos da cidade: o presídio novo, grande, ainda cheirando a tinta recente, cor cerâmica, chamado pejorativamente de “caixotão.” A rua terminava ali, logo no final do campo, depois, vinha a ruela: o “Rabicho.”
“Sim, senhor, é muito bom aqui, é ótimo, a brisa batendo no corpo da gente, na cara da gente, balançando os pelinhos do corpo, e o sol maneiro!” – Técio disse, enquanto os outros rapazes, alguns ainda nem tão rapazes – garotos -, se esparramavam sobre o passeio, se encostando à parede da casa de força. - “e deitar na grama também é um programa pra lá de bom!”
Técio não gostava destas coisas - de acordo com ele, ‘comuns’–, ações que muita gente praticava e, ele pensava, não levavam ninguém a lugar nehum, não levavam a nada. Só os patrões é que levavam vantagem.
“Só exploração! Chateação! Tolerar preconceitos?! Eu não! Vão pro inferno! Os caras ficam é dando o tempo deles de graça pros outros, pros patrões. E ainda têm de tolerar um monte de abusos. Como aquele operário, um pintor de paredes, que mora num barraco, no Rabicho logo ali embaixo. Gerson o nome dele. Vive borrado de tinta e de pó de massa e anda de sandálias de borracha. Tá sempre correndo atrás de alguma coisa pra fazer. Trabalha, trabalha, mas mora num barraco. Barraquinho mesmo! Amigo meu. Conversa comigo vez ou outra, se senta comigo pra trocar idéias. Brinca comigo. Me acha vagabundo e diz: “Você pra mim é doido!” Ele, às vezes, atravessa o morro, o cocuruto, pra ir trabalhar no condomínio grande ali do outro lado da cidade. Quando chamam ele pra trabalhar lá. Passa por aqui. Sempre passou. E pára pra trocar idéias. Gente boa. Ele não joga no meu time, é careta, muito careta, mas eu gosto dele. E ele me conta as coisas. O que as pessoas fazem com ele, com os trabalhadores, nas casas e nas obras. Mesmo nas ruas. Os engenheiros e os encarregados. Os patrões e as patroas. As mulheres parecendo galinhas chocas. Às vezes, são as empregadas é que enchem o saco, as domésticas: ‘Não quero que entrem na cozinha; acabei de lavar e enxugar o chão agora mesmo!’ ‘Não precisa pedir café; quando estiver pronto, eu mesma entrego lá fora. Eu vou levar lá!’ Isso, quando ganham café ou qualquer outra coisa! Se estiver trabalhando dentro de casa, então... sai da frente! É só: ‘cuidado pra não sujar os meus móveis! Sujeito porco, sô!, é tinta pra tudo enquanto é lado! Não vá arranhar o meu sinteco!’
E quando acontece de ele trabalhar em condomínios fechados ou prédios de muitos apartamentos onde as madames costumam fazer ginástica nas manhãs!? Os porteiros vão logo avisando: ‘--- as donas fazem ginástica de manhã nas quadras de esporte ou no salão de festas e elas não gostam que os empregados olhem pro lado delas, não!’ O cara fica puto! Umas mulheres pra lá de esquisitas: coroas, branquelas, barrigudas, bundudas; os peitos caídos, coxas e pernas lotadas de varizes e o rabo cheio de celulite! Tudo comida de gato: muchiba! Tudo boi do cu branco! Tudo terceira idade! E ele conta como as esposas, as amantes dos caras, dos operários, falam com eles quando eles chegam mortos de cansados em casa. Dizem que, se ‘esses bostas’ não derem um jeito de conseguir dinheiro suficiente pra dar conforto pras famílias deles, fazer moradias decentes, dar alimentação e vestimentas de boa qualidade, elas vão sair pra rua, arranjar outros homens, dar a xoxota ou mesmo o rabo pra eles, chupar até o pau deles se for preciso, pra aumentar a renda da família! Elas nem sabem das dificuldades que os caras enfrentam pra conseguir algum tipo de serviço, algum biscate! E algumas ainda reclamam com as amigas que os maridos são bundas moles, frouxos na cama. Que eles ficam esmolando o que fazer, esmurrando portas das pessoas que têm algum serviço, fazem o serviço – se o conseguem! -, ganham uma merda de salário – isso, quando recebem! - se matam de trabalhar, chegam em casa esfalfados, mortos em pé, e na hora do bom – nada! O pau não sobe, ou só fica de meia engorda, e é aquele baixo astral – um saco! E muitos deles chegam mortos de bêbados, putos da vida, e descarregam toda a ira sobre a família. E é por isso que algumas das mulheres dos caras dão mesmo pra outros homens. ‘Sem um peru eu não fico!’ – afirmam.”
A mãe de Gerson também tinha ficado sem peru. “Seu homem”, que nunca fora de resolver coisa alguma, desapareceu de repente e nunca mais deu as caras. E Técio achava graça: “Eu vou te contar, cara, não sei como o sujeito pôde se casar com uma mulher daquela. Magrinha, muito magra; não tem carne nenhuma pra gente pegar. Não tem pernas, não tem peitos, não tem bunda. Não tem nada! Nunca teve. Osso puro! E baixa; baixinha – um cisco! Ele, o marido, tinha mais é que sumir mesmo! Mas só tem uma coisa: ela levanta cedo todos os dias pra ir à missa. Vai na igreja do bairro ali do lado. É perto. Daqui dá até pra ver. E, depois, vai direto pro serviço. Trabalha de diarista. Nunca falta trabalho pra ela. Vai ver que é por isso que o filho é direito assim. A mãe dá o exemplo. E Gerson brinca. Diz que o pai foi comprar cigarros e se perdeu na volta. Que um dia ele aparece. Mas o homem às vezes é visto na cidade. Mas não aqui nas ruas do bairro ou no Rabicho. E não dá um pingo de confiança pro filho! Também, não faz falta nenhuma.”
A mudança tinha começado como Sebastiana contou. Uma colega veio à porta do barraco lhe dizer que havia uma mulher interessada em uma empregada. Não era pra ficar direto, apenas limpeza três vezes por semana, e passar algumas peças de roupa. Queria uma moça responsável, que chegasse cedo ao serviço, que fosse limpinha e esperta – boa de serviço. Se ela desejasse, se estivesse com coragem de “enfrentar a onça”, podia perfeitamente ir com ela que seria apresentada e, sem dúvida, conseguiria o emprego. Sebastiana quis, ela não era ‘boa de serviço’, não era ‘esperta’ não era nada disso, mas estava precisando de alguma ocupação, estava andando sempre sem dinheiro. Ela ia. Ia fazer força pra tolerar. Foram. E, logo na manhã do terceiro dia, começo de serviço, quando Sebastiana já estava principiando a tomar raiva da patroa, como é norma acontecer com as empregadas domésticas, raiva por as patroas ficarem corujando o tempo inteiro, tomando conta pra ver se as empregadas estão lavando as panelas e vasilhas de acordo, estão limpando o chão, os banheiros e as vidraças no capricho, se estão fazendo tudo direitinho, raiva daquele modo de a patroa ficar olhando pra cara dela, pro corpo dela com o rabo dos olhos, a dona lhe pediu que se sentasse ao seu lado, no sofá, lhe passou o braço ao redor dos ombros, e disse: "Você é uma morena muito bonita, menina, eu tenho te observado, e acho que vamos nos dar bem, muito bem mesmo!” e trocaram idéias por certo tempo. E Sebastiana acabou indo com a cara dela. Após mais alguns dias de convivência, a mulher resmungou: “Se eu tivesse seu corpo, moça, sua beleza, sua cor, a sua idade, eu não teria entrado na gelada em que entrei. Não teria me casado com a merda de homem que encontrei numa péssima hora, - Deus que o tenha no mais profundo dos infernos!-, nem teria tido filhos, e não estaria nesta situação em que tô hoje. Tô separada, sem marido, com dois filhos pequenos, tendo que me virar pra arranjar grana pra tratar deles e de mim!” E de fato se deram bem.
“O que você pensa disso, Tetéu? Não é bacana? Você não acha que...?”
Técio não achava nada; ele não estava nem um pouco interessado nas palavras da irmã. Pra começo de conversa, nem casa ele tinha. Morava num barraco, como ela bem sabia. Tava bem ali em baixo! A família tinha vindo pulando de morro em morro, de barraco em barraco, de ruela em ruela, e tinha aportado ali. E se agarrara. E ela também tinha morado lá. Durante quantos anos ele nem sabia ao certo. Um monte de anos. Quatro cômodos pequenos, de paredes tortas, mofadas, um banheiro de fossa no terreiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, do tamanho do terreiro, e um pequeno fogão a lenha, feito de barro, escorado numa parede externa. Teto de telha de amianto, chão de cimento queimado. Lagartixas, formigas, baratas, traças e os mosquitos - aos magotes! -, passeando por todos os cantos. E, em época de chuva forte, as águas escorrendo pelas paredes. Assim eram todos os barracos do Rabicho. Não era à-toa que os rapazes da turma estavam se amontoando no cocuruto. Ou então ficavam pelas ruas. Ficavam “por aí”. Pra sair fora daqueles casebres deprimentes. Harmonização de ambientes! Como era mesmo o nome do negócio? Feng shui! Isso mesmo! Hum!
Vacilando em sua vagabundagem, Técio achava que às vezes era melhor ter um emprego, ou uma profissão, e uma renda, mesmo que pequena, e poder comprar o que se quisesse (desde que o dinheiro fosse suficiente) sem incomodar ninguém nem ficar servindo de diversão e assunto pros outros. “Perguntar os preços, regatear, e comprar – e não ficar devendo filho da puta nenhum! Nem um tostão!” Mas ele não tinha esse costume: “Trabalhar, cara?!”
Tiana, desconsiderando a rudeza do irmão, disse que a patroa, além do Feng shui, também era estudiosa de livros de auto-ajuda e estava lhe dando muitas dicas valiosas de como se dar bem na vida, de como alcançar a “platitude”, ganhar dinheiro, estabelecer boas amizades, ter as coisas – ser feliz. E tudo o que ela estava ouvindo, aprendendo, seria de muita utilidade também pra Tetéu, ela tinha certeza. E ela gostaria de lhe passar estas mensagens.
Mas ele já tentara fazer coisas diferentes. “Como da vez que fui trabalhar num grande supermercado. Tirei as costeletas, os quatro brincos (bijuterias) das orelhas, aparei os cabelos, fiz a barba, tomei banho, escovei os dentes, vesti uma roupa decente, calcei sapatos limpos, cobri a tatuagem com a manga da camisa e - coisa que eu sabia ser muito importante – fiz um treino em voz alta, pra cortar as gírias e ficar desenvolto. Eu não podia usar linguagem de malandro! Queria estar apresentável. Minha intenção era trabalhar de entregador no caminhão e convencer o motorista a me deixar pegar no volante vez ou outra. Eu não sabia dirigir e precisava aprender, se quisesse dar saltos maiores algum dia, como tava planejando – roubar cargas. É um filão promissor, a gente vê isso aos montes na televisão. Os caras vão lá, tocaiam os motoristas, amarram eles no mato, e desaparecem com as cargas, com os caminhões. Vendem pros comerciantes. Muitos compram, vai ver alguns até encomendam cargas roubadas. Remédios, móveis, eletrodomésticos. Cargas de cigarros. É tudo coisa fácil de se vender. Gasolina. Pode-se até oferecer os caminhões de volta pros próprios donos deles mesmo, por um preço mais barato. Muitos assaltantes fazem isso; telefonam pras firmas e falam com os donos. Negociam com eles. E revendem os caminhões. Todo mundo fica satisfeito. Claro que não disse nada disso ao ser entrevistado. Desejava apenas o serviço; tava necessitado. Mas fui aceito provisoriamente como repositor de estoques nas gôndolas e prateleiras e entregador de folhetos quando houvesse necessidade, e não consegui passar disso. Recebi ordens de, quando saísse pra entregar folhetos, ir a todas as casas, de todos os bairros, mesmo os mais afastados, e enfiar eles nas caixas de correio, nas portas de garagens, que entregasse às pessoas nas ruas. E até comecei bem essa função. Enfiava as mercadorias nas gôndolas, depois, pegava aquela merda, muitos folhetos, e me punha a distribuir. Mas notei que as coisas não dariam certo. Primeiro, era muito trabalho. Dentro do supermercado, era o zunzum o dia inteiro. As pessoas esbarrando, perguntando, empurrando os carrinhos. Os encarregados e fiscais cobrando eficiência, pontualidade, atenção. Segundo, nas andanças, na distribuição de folhetos, que eram semanais, não haveria sapato que agüentasse, não haveria roupa que resistisse ao suor, pernas que suportassem andar por todas aquelas ruas, todos aqueles becos, morros e bairros, durante o dia inteiro. E o frio ou o calor!?” E Técio pediu uma bicicleta e roupas adequadas ao gerente e ouviu que não fazia parte da filosofia da empresa dar bicicletas ou vestes aos empregados. De mais a mais, ele teria de bater em todas as portas, pra que ele queria uma bicicleta? O negócio era andar! E o gerente ainda lhe avisou que os folhetos tinham de ser entregues o mais rápido possível. Se não conseguisse fazê-lo no prazo estipulado, durante o dia, que fizesse o serviço também à noite. As promoções tinham uma data definida pra acabar, como ele estava “careca” de saber. Era preciso desovar os estoques. “Falei: ‘ah, é?’ Fiquei pouco tempo, um mês e uns dias, passei a mão em meu salário, merreca, coisa pouca, nem disse que ia deixar o emprego, estava de experiência, porra! Vim pra casa, joguei os folhetos da ocasião num buraco, e nunca mais voltei lá. Eu não! Os folhetos estão ali em baixo até hoje, jogados dentro do buraco!”
Depois de Tiana descer o morro, Técio se esticou sobre o passeio e relaxou. Então, era assim o modo de a situação começar a ser transformada pra melhor? Desejar as coisas, pensar nas coisas, falar ‘mantras’ vezes sem fim?! Só ficar repetindo ‘carrão’, ‘mansão’, ‘motocão’, e troços do tipo?! E se aproximar das ‘pessoas de bem’, das ‘gentes boas’, pra extrair ‘fluxos positivos’ e assimilar ‘bons fluidos’ e ‘boas perspectivas de mudanças?’
“E será que funciona mesmo?” – ele se perguntou.
Então, Gerson observou:
“Sua irmã tá realizando a lenda pessoal dela, moço!”
“Tá sim. A dela e a da mulher que tá vendendo o corpo dela! A seta tá acertando o alvo!”
“Ela tá transformando a bocetinha dela em ouro!”
“Tá mesmo!”
“Acho que a bundinha também!”
“É isso mesmo!”
“Se duvidar, ela tá até batendo de boca no pau dos ‘clientes’ que a patroa tá arrumando pra ela!”
“É o mais certo!”
Sem medo de ser repreendido, Gerson acrescentou:
“Ela tá dando todos os buracos do corpo!”
“Tá aprendendo direitinho as lições do mago alquimista.”
Fazendo troça, Gerson disse:
“Tiana vai subir alto na vida, moço... e vai te deixar pra trás!”
“Vai sim... mas, se eu tivesse nascido com um rachado no meio das pernas, o negócio ia ser diferente.”
“Ah, ah!”
A época das chuvas, que não demoraram a chegar, trazendo com elas a ventania e o frio, mostrou o ponto fraco do cocuruto: não havia uma cobertura onde a turma pudesse se esconder. E a falta de proteção empurrou os rapazes de volta pro Rabicho barrento, pra dentro dos barracos. E, entrando em seu barraco, Tetéu deu de cara, outra vez, com os mosquitos, as lagartixas e as formigas que zanzavam pelas paredes trincadas, as traças que se arrastavam, vagarosas, pelas paredes mofadas e pelo chão sujo, as gotas de água pingando do velho telhado de telha de amianto. As águas, penetrando nas rachaduras, iam descascando a pintura antiga, de cal, provocando um odor estranho, desagradável, manchando as paredes, e tudo contribuía pra abalar o ânimo de Técio, pra lembrá-lo de quão fodido ele estava, de quão ninguém ele era. E as noites calorentas traziam o excesso de pernilongos e sanguessugas. E ele odiava tanto esses bichos...!
Se ela estava satisfeita, Técio não estava. E Técio não almejava ser sempre um ladrão de cargas. “Do mesmo modo que posso roubar cargas, posso também vir a ser um empresário de sucesso.” Era a outra parte do plano, o outro alvo: montar o seu próprio negócio. Roubar cargas até conseguir dinheiro suficiente e, depois, mudar de ramo: montar uma loja. E – como Tiana havia afirmado – “pensando grande”, enxergando apenas “à frente”, ele tentaria coisas maiores, montaria mais lojas e, em vez de roubar, passaria a encomendar cargas roubadas, mercadorias contrabandeadas, e iria abrindo mais lojas, compraria fazendas, sítios, ergueria prédios, abriria hotéis. E os alvos iriam se sucedendo. “A gente vê isso na televisão. Os caras vão fazendo as coisas, montando lojas, construindo prédios, acumulando bens, ficam muito ricos e, depois, são pegos e aparecem na televisão como receptadores de cargas roubadas, de mercadorias contrabandeadas. A cara mais lambida do mundo! E nem por isso vão presos. E menos ainda deixam de ser considerados ‘gente boa’, ‘pessoas de bem’, ‘cidadãos de conduta ilibada’, ‘membros influentes da sociedade’. Mas, no fim, não é nada disso! É tudo trambiqueiro! Tudo vagabundo! Tudo gentinha!”
Um velho preto está encostado ao balcão do boteco tomando uma pinga. É de manhã, o dia ainda nem acabou de nascer direito, e o preto já tá tomando uma pinga. E vai ver nem é a primeira! Mas, antes de se fixar no velho preto, Gerson decide considerar o dono do boteco. Lançando mão das teorias da ‘espada afiada e da lenda pessoal’ que a mana de Técio tem usado tão amiúde, Gerson tenta adivinhar se o dono do boteco realizou sua lenda pessoal. “Se não realizou, se não pôs sua espada pra funcionar até agora (e, se pôs, errou o alvo!) – pondera Gerson – é tarde; o homem já tá bastante entrado em anos, tá velho, a morte é seu destino mais provável em pouco tempo, ao invés de a realização de qualquer projeto pessoal.” O sujeito é gordinho, muchibento, barrigudo, claro, baixinho – ridículo! – pensa Gérson -, bigode espesso; usa óculos de grau, muitos cabelos lisos completamente brancos (deu sorte de não ter ficado careca!), a camisa de cor clara é puída e um tanto ensebada... Vai ver não tem dinheiro nem pra comprar roupas e nem pra pagar uma lavadeira. Seu boteco não é dos mais limpos. Só possui uma feia porta de madeira descascada. Há um buraco na porta, na parte de baixo, ao lado do portal, de tamanho suficiente pra dar passagem a um rato de bom corpo. Mesmo de certa distância, pode-se ver que há muitas manchas nas paredes, sinal de que elas não vêem pintura, nem mesmo uma mísera caiação, há bastante tempo. O balcão, além de antigo, tem um dos vidros partido. Há falhas na ocupação das prateleiras, o que leva Gerson a deduzir que o homem tá fodido, tá sem grana pra comprar mercadorias e talvez esteja até quebrando, esteja em vias de encerrar as atividades. Gerson pondera que o homem, o dono do boteco, não realizou sua lenda pessoal, não desembainhou a espada, teve medo do futuro - se é que vislumbrou algum futuro à sua frente alguma vez! - ficou receoso de pular no escuro. Não caminhou pra onde seu medo apontava. Preferiu ficar ali, na mesmice, pregado atrás do balcão daquele chiqueirinho, vendendo pinga e bebidas ordinárias, talvez fiado!, pra pretos velhos miseráveis e outros tipos de pinguços, ganhando uma ninharia ou coisa nenhuma, ao invés de dar um salto no nada, na incerteza. Não vencera na vida, certamente não chegara a lugar algum, pois, se o tivesse feito, seria proprietário de pelo menos um restaurante decente. Não foi um guerreiro; não era um vencedor.
“Sabe o que é?”
“O que é?”
“Você sabe que quando os operários ficam sabendo que tem algum serviço na cidade eles aparecem como formigas. Pedem o serviço, telefonam, entregam orçamentos, pedem engenheiros e mestres-de-obras conhecidos para os indicarem aos donos das obras, pedem às empregadas domésticas... as coisas acontecem assim, não é verdade?”
Era verdade
Duas coisas aborreciam Gerson ao falar com Darcy. Primeira delas, o hábito que o sujeito tinha de se debruçar sobre o rosto das pessoas, enquanto lhes punha a mão sobre um dos ombros e apertar, um gesto irritante. Segunda – e pior – Darcy, uma boca enorme (um bocão), cheia de pedaços de dentes podres, falava com a boca cheia de cuspe e lambuzava a cara dos interlocutores. Por isso, Gerson o evitava. Darcy, servente de pedreiro velho, moreno amarelado, a roupas em frangalhos, o boné sujo, as sandálias em petição de miséria. Um ‘bosta’, sua esposa diria, sem dúvida. Mas Darcy não se casara.
“Sabe o Tetéu, rapaz? Ou melhor: soube do Tetéu? aquele seu vizinho cheio de brincos e tatuagens e mutretas?”
As coisas tinham acontecido como o velhote contou mais tarde: “Eu sou viúvo, como vocês sabem. Viúvo e aposentado. Minha dona morreu há alguns anos; meus filhos, dois filhos, nem moram na cidade. Fico nesta casa, então; vivo sozinho, nos fundos do beco. É fundo de beco, é verdade, mas é bem conservado e a casa é boa; tem o terreiro e tá numa área central. Tá perto de tudo: farmácia, padaria, supermercado; perto de todas as comodidades. E o lotação pára logo na porta. Tenho tudo à mão. Então, foi assim: era fim de madrugada, umas cinco e meia da manhã. Eu tinha acabado de deixar a cama, tinha me levantado pra ir ao banheiro. É a primeira coisa que faço todos os dias. Me levanto e vou direto pro banheiro. Depois, vou à padaria. Compro um pão ou dois; tem dia que compro um litro de leite. Dá pra vários dias. Ponho na geladeira. Então, faço as compras e fico lá, batendo papo. Só por alguns minutos. Depois, volto pra casa. Coisas de velho. Nisso, ouvi um barulho de alguma coisa pesada caindo dentro do terreiro, perto do muro.
Me perguntou: ‘moço, você tem uma arma?’ Eu respondi: ‘não; não tenho’. “O que eu faria com uma arma, a essa altura da vida? Tenho setenta e dois anos!” “Pois você vai ganhar uma. Eu vejo nos jornais que os caras ‘stão roubando até caixas de fósforos na cidade, você mora sozinho, e ainda fica emprestando mixarias a juros. Algum vagabundo pode vir a saber e cismar que você é rico. Mesmo aqui na roça tá muito perigoso”.
Mas, aí está. O bicho me alertou pra presença dele e o moço se lascou. Talvez, se o cachorro não estivesse lá, ele tivesse me surpreendido. Mas eu não queria acertar o rapaz. De jeito nenhum! Queria só assustar ele. E este moço devia estar mesmo precisando de grana: ele saltou por cima dos cacos de vidro que mandei colocar sobre o muro. Sobre toda a extensão do muro! E este muro é bastante alto. Depois que ele caiu ferido, o pessoal que tinha sido alertado pelo tiro, o pessoal que vem cedo à padaria, tirou a touca ninja dele e viu que era este rapaz. Era conhecido. Não conhecido meu. Disseram que não era gente boa, não. Vivia de trambique, de rolos. Muita gente já conhecia ele”.
“Tetéu tava como umas conversas esquisitas! Uns papos furados, moço. Tava falando muito numa tal de ‘quimia’. Disse ele que ia transformar a vida dele em ouro! Que ia voar e dar um pulo no escuro! ‘magina! Eu acho que ele tava era pitando e cheirando as ‘coisas’ demais! Tava ficando maluco! Agora ficou tudo escuro mesmo pra ele! Ele não tá enxergando nada!” – e riu, - hi, hi! - a boca enorme, bocão, cheia de pedaços enegrecidos de dentes e de cuspe.
CARAÇA - AGONIA E RESSURREIÇÃO
sábado, 21 de janeiro de 2012
HOMENS TRABALHANDO (romance)
HOMENS TRABALHANDO
(romance; segundo livro da série “JORNADA”)
(ainda não publicado)
Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encarregado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras páginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, perguntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!
Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície lixada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquentar o almoço dos peões.
Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpinteiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, batendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digitou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra enxugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!
---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, falando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!
Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos compradores dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como autônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que morando e trabalhando na mesma cidade.
Sexta-feira! Toda sexta-feira a rotina era a mesma: cachaça, zona e, no sábado de manhã, ressaca. Para outros ainda era: cachaça, zona, cadeia, ressaca. E, ainda para outros, era: cachaça, zona, cadeia, ressaca e, seis dias depois, gonorréia.
Ivair se levantou. Foi ao balcão:
---- Duas pinga! Uma Coca!
O rapaz negro pegou dois copos, chegou-os à torneira do barrilzinho. Pôs sobre o balcão. Abriu a geladeira. Tirou um refrigerante. Topete pegou um copo, virou na boca. O outro ele levou, junto com a pinga, para Calcanhar de Cebola. A mulher arredou-se mais para beirada do banco e colocou o copo e a garrafa sobre ele. Topete se sentou na outra beirada. Calcanhar de Cebola misturou a Coca com a pinga e começou a beber.
Joãozinho Botina estava vermelho. Ele via a mulher gritando na sua cara, Topete gesticulando sem parar, como dois seres disformes. A luz amarela parecia escorrer pelas paredes. Sem pensar muito, ele tirou uma garrucha de sob a camisa. Apontou para qualquer lugar e as paredes pareciam balançar e entortar na sua frente e puxou o gatilho. Depois, virou as costas e saiu desabalado, tropeçando, caindo, correndo. O rapaz desligou o som.
Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.
Eu e o rapaz do balcão ficamos desnorteados. Algumas pessoas apareceram à porta e eu lhes pedi que arranjassem um carro. O meu cinema acabara! Levamos o Ivair para o hospital. A mulher desaparecera. O doutor de plantão examinou o ferido. Disse que o caso não era grave. A bala rasgara realmente a carne, donde o sangue, mas não atingira qualquer órgão. O cara ficou na enfermaria. Eu fui sozinho e a pé para casa.
Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara bebendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.
À noite, nos encontramos. Madalena vestia a mesma roupa da noite anterior. Estava sóbria. Daquele jeito, sem zonzura, pude ver que ela era muito mais feia do que eu achara antes. O cabelo era fino, mas pouco, e muito anelado. Seus dentes superiores eram pequenos demais em relação aos de baixo.
---- Não vai estudar hoje, não?
---- Estudar?! Que idéia é esta?
---- Você me falou ontem. História de pós-graduação...
---- História mesmo! Não sei o que é livro e nem quero saber! Mal e mal sei ler algumas palavras!
Fez silêncio por um instante.
---- Vamos onde?
---- Sabe dançar?
---- Muito pouco.
---- Qualquer coisa serve.
Tirou a roupa. O corpo eu já conhecia: peitos pequenos, caídos; pernas finas, lisíssimas. Abriu as pernas. Demorei a gozar. Ela também estava sem ânimo. Não correspondeu. Eu falei:
---- E a minha proposta?
---- Qual?
---- De você dormir aqui com freqüência?
---- Até os dias em que eu estiver menstruada?
---- Lógico que não! Não quero saber de mulher com a avó atrás do toco me enchendo o saco, não, porra!
---- Quero!
---- Vou lhe dar uma chave. Sempre que vier, não traga ninguém e nem deixe a Zefa vê-la entrando aqui nem saindo; seja a qualquer hora, entendeu?
---- Certo!
---- Ao sair, feche a porta!
---- Vou fazer café.
---- Faça.
Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair correndo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?
Havia já algumas semanas que eu trabalhava no prédio quando, um dia, às nove horas, o benedito chamou. Nem todos ouviram. Alguém subiu pelo guincho, entrando em todos os andares, avisando, aos gritos:
---- REUNIÃO NA GARAGEM! VAI ACONTECER UMA REUNIÃO IMPORTANTE NA GARAGEM! O DOUTOR AMORIM TEM UM RECADO PRO PESSOAL NA GARAGEM!
Descemos rápido pro local. Era a primeira vez que o manda-chuva reunia o pessoal, por isso os operários não esperavam boa coisa.
Então, o doutor finalizou;
---- Não se esqueçam do que eu estou dizendo: votem em meu candidato... e digam para suas famílias também! E expliquem lá pra elas tudo direitinho! Direitinho!
Em seguida, os dois desceram dos caixotes, viraram as costas para os operários, tomaram a direção da rampa e desapareceram. O Puxa-Saco e o Coquinho foram atrás.
Os operários ficaram imóveis por um momento, um olhando pra cara do outro. Logo, logo veio o som do benedito sendo acionado. Devagar, nós começamos a subir os andares. Uns pelas escadas, outros pelo guincho. Hora de retomar o serviço.
Pouco tempo depois de o doutor ter saído com seu candidato, o benedito chamou pro almoço. Nós nos amontoamos em silêncio na garagem. Coquinho montava guarda no fim da rampa. Após o almoço, quando todos procuravam um lugar para se esticar, Maneco quebrou o silêncio e trouxe à tona o assunto:
---- Tem gente qui acha qui nóis é retardado!
---- Eu fiquei puto! A velha me enchera o saco, me fizera raiva. E eu lá, de dia, de noite, aos domingos! Ela me chamando de porco, de lerdo, de não sei mais o quê! E agora vinha com palhaçada! Cheguei a boca no ouvido da velha e gritei:
---- VELHA FILHA DE UMA PUTA! MUCHIBENTA! PAGUE SEM RECLAMAR QUE EU NÃO QUERO LHE VER NA MINHA FRENTE NUNCA MAIS! E VÁ TOMAR NO CU!
---- Pedro ficou muito vermelho. A velha ficou pálida. Passou a mão no dinheiro e pagou depressa.
Nós saímos.
Quando parei de falar, notei que Coquinho me observava atento, do lado direito, com a bunda encostada na parede. Não resisti à tentação de provocá-lo. Disse:
---- Bom dia, Coquinho!
Ele se enervou. Desceu os braços ao longo do corpo, abriu a imensa boca babenta e fuzilou:
---- VAI TOMAR NO CU, DISGRAÇADO! FILHO DE UMA PUTA!
Os homens tamparam as bocas com as mãos para esconder o riso, virando as caras para o lado. E ele continuou:
---- PINGUÇO! VAGABUNDO! OCÊ VAI MORRÊ CEDO! OCÊ VAI VÊ! CACHAÇA VAI TE MATÁ!
O benedito assinalava o fim do almoço e eu subi correndo as escadas. Quando estava no quarto andar, ainda podia ouvir a voz do maluco praguejando, lá em baixo, na garagem.
Toda vez que eu me embriagava na noite anterior, nem tentava disfarçar os sinais da bebedeira, de manhã. Eu não conseguia rir. Não agüentava ficar sem um encosto qualquer e jamais olhava para a frente. Só para o chão. A maior vítima de tudo isso era o trabalho. O rendimento ia a zero. A toda hora eu parava pra descansar e, quando tinha certeza de que o Puxa-Saco não apareceria no meu setor, sentava-me em uma lata de tinta, dobrava os braços sobre os joelhos, deitava a cabeça sobre os braços, e ficava horas a fio sem me mover. Quando era inevitável que fizesse qualquer coisa, eu procurava algum acontecimento bom da minha vida e o ficava relembrando durante o expediente, de modo a não me lembrar da obrigação do dia. Naquela manhã, eu tinha chegado arrasado à obra. Pensei: -- Vou ficar me lembrando, até mais não poder, da trepada mais gostosa que já dei até hoje! Ao chegar perto do guincho, Zé Maria perguntou:
---- Você bebeu ontem?
---- Enchi o rabo!
Eu fora à Zona. Havia uma mulher parada, com os braços cruzados, encostada à porta de uma das muitas casas velhas e decadentes da vila. Era baixa, falsa-loura, meio coroa de olhos castanhos meigos. Estrias profundas sobre os lábios. Em volta dos olhos, mil e um pés de galinha. As pelancas já começavam a dar trabalho. Dentes amarelados postiços aparecendo por detrás dos lábios carnudos. Boca toda lambuzada de baton. Brincos de latão ou alumínio. Vestido surrado vermelho. Sapatos também vermelhos, esfolados, bicudos, feios.
---- Quer dar uma trepada de noite inteira comigo, amorzinho? - perguntei.
---- Não posso, querido! - ela respondeu, educada - toda terça-feira um cara dorme comigo. Se pudesse eu ia mesmo!
---- Pois é, eu tô a fim de uma perereca!
Quando coloquei o pé na plataforma, senti a mão de alguém em meu ombro direito. Olhei. Era Coquinho.
---- Zé Antônio tá chamano ocê lá no iscritório.
---- Pra quê?
---- Sei lá!
Entrei no escritório e me sentei à frente do Puxa-Saco.
---- Júlio César?
---- Hein?
---- O que tá acontecendo aí na obra?
---- Hein?
---- Essas conversas que estão saindo aí?
---- Sei não.
---- Como não sabe?! Eu tô sabendo!
---- É? Mas eu não tô!
---- E não é só isto, não!
---- O que tem mais?
Apareceu a mulher. Era baixinha, magra, morena-clara, risonha. Cara chupada. Estava enrolada num roupão de banho. Os cabelos negros e molhados caindo sobre parte de seu rosto não impediam que se notasse sua feiúra. Trepar com ela não era uma perspectiva das mais animadoras, mas, como estava com fome, decidi-me por ir com ela.
---- Você é o cara de quem minha colega falou?
---- Eu mesmo!
---- Vem comigo!
---- Que sociedade, cara?
---- As pessoas importantes!
---- Huumm...!
O meu saco já estava arrastando lá no chão. Logo antes do almoço, aquela bosta vinha me encher a paciência! Era dose!
---- Zé Antônio - eu disse - tudo que eu faço dentro da obra ou fora dela está dentro da constituição. São atos legais. Além disso, a liberdade de expressão é garantida na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
---- Ah, é? Pode até ser, mas o doutor não gosta! E ele não gostará de saber que isto acontece aqui dentro da obra! E o pessoal da cidade, o povo mais antigo, persegue as pessoas que tenham tendências e opiniões contrárias às suas, principalmente políticas!
---- Foda-se! Tá escrito na constituição!
---- Júlio César, posso lhe contar uma história?
---- Real?
---- É!
---- Não! Não me interessa!
---- Mas eu vou contar assim mesmo!
---- Oh, saco!
---- Apareceu aqui uma vez um rapaz...
---- Aqui onde?
---- Na cidade. Apareceu aqui e trabalhou aqui e estudou. Ele tinha as mesmas idéias suas.
O que o sujeito sabia de minhas idéias, porra?!
---- Estudou na universidade?
---- Isso! E vivia criticando a sociedade: fulano é isso, sicrano é aquilo, beltrano é assim...
---- Mas pode! Tá na constituição!
---- ... criticava o pessoal que ia à reunião do Lions...
---- ... e a constituição?
---- ... o pessoal que ia à reunião do Rotary...
---- ... e a constituição?
---- ... os doutores...
---- ... e a constituição?
---- ... os professores...
---- ... e a constituição?
---- Vamos começar? - Gracinha perguntou.
---- Vamos. Você por baixo ou por cima, primeiro?
---- Por baixo.
Gracinha se deitou de costas e abriu as pernas. A mulher me pegou no meio das coxas. Passava os membros lisos, lisos, entrelaçados em volta de meu tórax, para cima e para baixo. A gente se amava.
---- Ai, Júlio César, sua pica é gostosa demais! Ai! - gemia ela, nos meus ouvidos.
Nós trocamos beijinhos, de olhos fechados, na penumbra do quarto. Só o abajur estava aceso. Quando eu a penetrava, ela firmava a sola dos pés sobre o colchão e levantava o corpo. Trazia a boceta para encontrar o meu pau. Nós ficamos nos socando até que eu a empurrei com força sobre a cama. Ela gozou e gemeu. Me apertou com mais força ainda. Me passou vagarosamente a mão pela nuca. Eu desfaleci em cima dela. Fiquei exausto, com os dois braços estendidos ao longo de sua cabeça. Ficamos, depois, deitados em silêncio. Ela fumou um cigarro. Fiquei de barriga pra cima e de olhos fechados. Lá de fora, vinha o barulho do vento soprando as folhas das bananeiras, do farfalhar das folhas das bananeiras, das águas do rio que passava logo atrás da casa se chocando contra as pedras do leito.
Após algum tempo de descanso, recomeçamos.
Eu disse recomeçamos; na verdade, foi Gracinha quem o fez. Ela ficou de lado na cama. Eu continuei de olhos fechados. Ela, então, começou a me alisar o rosto. Mordiscou-me a ponta do nariz. Foi descendo com as mãos pelo meu peito, enfiou o dedo indicador no meu umbigo. Abri os olhos. Seus peitos estavam na altura de minha boca. Apertei-os com carinho. Mordi-lhes os bicos com os lábios pra não doer. Gracinha continuava me passando a mão. Outra vez, meu pau endureceu. Gracinha o segurou, ficou olhando em silêncio pra ele por um momento, depois, disse:
---- Hummm, grande!
---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondiam!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais independente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada? ---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondiam!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais independente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada?
O Puxa-Saco ficou olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra cara do Puxa-Saco com cara de não-tô-nem-aí.
Então, depois de termos ficado alguns minutos nos analisando, eu lhe perguntei:
---- Escute, esse sujeito que inventou essa lei especial de isolamento pro rapaz era o prefeito da cidade, você disse?
---- ERA! - gritou ele.
---- Mas isso é ditadura, moço! O isolamento era um sistema usado no comunismo da extinta União Soviética. Os dissidentes, os linguarudos, apodreciam nos campos gelados da Sibéria!
(As coisas não apodrecem no gelo, mas, o bobo provavelmente nem sabia disso!)
---- NÃO INTERESSA! ELE ERA O PREFEITO!
---- Mas como o pessoal da cidade votou nele?
Eu perguntei e fiquei encarando o Puxa-Saco. Ele ficou, durante algum tempo, olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra ele com cara-de-não-tô-nem-aí.
---- Como? - insisti.
O Puxa-Saco, então, ficou sem graça e virou a cara-de-bosta pro lado da estante encostada na parede à sua direita e não me respondeu. Eu, então, me lembrei da reunião na garagem: a pressão! Era de praxe!
Eu nunca mais vi Gracinha. Algum tempo depois, alguém me disse que ela saíra da Zona e se juntara com um velho grã-fino da periferia da cidade. E que ela passara as mãos nos pertences do velho e até o chapéu panamá legítimo que ele usava pra cobrir a careca tinha desaparecido. E que ela xuxara a perereca com tanta fúria no velho que ele entortara o esqueleto pra frente e pro lado e andava com dificuldade, arrastando os pés e trombando pelas paredes e estava com voz de taquara rachada, falando guinchando como um rato quica. E que, mesmo quando estava usando dentadura, a boca muchibenta do velho ficava chupada pra dentro, parecendo um cu de galinha.
A mulher acabara com o cara na cama!
Aquele dia amanhecera muito chuvoso. Olhando-se lá de cima, da cobertura do prédio para a rua, quase nada se podia ver por causa da cortina de água. O riacho atrás do prédio tinha transbordado e a água já ameaçava invadir a garagem. Trazer material do almoxarifado para a construção estava difícil: a chuva era intermitente e a lama cobria todo o chão. A plataforma do guincho estava que puro barro e, pra complicar, vários homens haviam faltado.
Parecia que o Esmeraldo escolhera logo o pior dia pra chegar ao serviço quase caindo. Os olhos vermelhos como olhos de pomba. A carapinha, mais ouriçada do que nunca. Seu cheiro de suor era penetrante e seu chulé estava deveras incomodando. Provavelmente não dormira à noite. O bafo de cachaça que exalava deixava notar que passara a noite em claro, talvez no jogo de baralho e, indubitavelmente, na pinga. Para testá-lo, eu disse:
---- Esmeraldo, traz água lá de baixo pra mim?
Lá estava o Esmeraldo, na sala de chão de terra batida, esticado no caixão. Um lampião a querosene empesteava o ar com um cheiro horrível. A fumaça fedia. Finalmente, ele tirara as botas e lavara os pés. Tinham lhe calçado meias e cortado a barbicha desgrenhada. Uma tira de pano amarrada em volta da cabeça conservava-lhe a boca fechada, escondendo os pedaços de dentes. Duas velhas vestidas de chita montavam guarda, sentadas em tamboretes. Rezavam o terço.
O pessoal, à vontade, bebia cachaça e ria às gargalhadas no terreiro. Encostei-me a um mourão da coberta, sem vontade de ficar ali e arrependido de ter vindo. Uma negra de uns trinta anos apanhou uma garrafa de pinga e se aproximou de mim com um copo na mão.
---- Coitado do Esmeraldo! - eu filosofei - Nasceu pobre, ficou miserável, carregou massa, carregou tijolos, carregou tábuas, carregou pedra, foi explorado, foi humilhado, foi massacrado, caiu do andaime, se fodeu - morreu! Vai ser enterrado neste fim de mundo, no meio do mato, onde nem luz nem estrada tem! Ninguém vai saber que ele existiu!
Puto, certo dia ele tirou a calça e a cueca dentro da obra onde trabalhava, durante o expediente, e ficou girando sobre si mesmo e gritando:
---- MARINETE, FILHA DE UMA PUTA! MARINETE, FILHA DE UMA PUTA!
O engenheiro, o patrão, chegou na hora! Empertigado! Doutoral! E trazia a esposa junto! Quando eles entraram no cômodo, Periquito parou. Ficou de pé na frente do doutor, sorrindo sem graça, com o peru murcho apontando pra baixo. A mulher do patrão fingiu seriedade, mas ficou olhando gulosa pro pau do rapaz. O doutor, vermelho, gritou:
---- QUE BONITO HEIN, VAGABUNDO? EU NÃO O MANDO EMBORA AGORA POR CAUSA DAS DÍVIDAS QUE VOCÊ FEZ PARA IMPRESSIONAR AQUELA PROSTITUTA!
Lixando, lixando! Era dose, mas fazer o quê?
Cleir se ajeitou de costas e abriu as pernas. Fábio tinha intimidade zero com aquilo - boceta - mas, mesmo assim, tinha alguma teoria de ouvir falar. Sabia que o hímem das moças - que os homens desbocados da obra chamavam de cabaço - oferecia resistência nas primeiras vezes; que havia sangramento no seu rompimento; que as mulheres sentiam um misto de prazer o gozo no ato do amor, na primeira trepada, e que o clitóris - que os homens desbocados da obra chamavam de crica ou grelo - costumava ficar duro e saliente, apontando pra fora da vagina - que os homens desbocados da obra chamavam de xoxota ou trem bão.
---- Aquela mulher minha é uma vagabunda, porra! Ficou namorando comigo bonitinho, parecendo uma menininha, mas só na noite de núpcias descobri que ela não era mais virgem! Tava com a boceta arrombada, a vagabunda! Filha de uma puta! Safada!
Alguém sempre falava:
---- Mas que idéia foi essa sua de deixar pra enfiar o peru só no casamento? A gente come é antes, logo no começo do namoro! Não se usa isso de ficar pajeando a noiva mais não!
E Fábio gritava:
---- VOCÊ É UM SEM-VERGONHA, PORRA
Quando alguém lhe indicou um doutor que estava saindo de carro com Cleir, Fábio, uma noite, o esperou até tarde, na garagem do prédio onde ele morava:
---- Doutor, o senhor é meu amigo! Larga a minha mulher! Não faz isso comigo, não! Eu morro!
O doutor se fez de desentendido. Gentilmente, ele falou:
---- O que é isso, rapaz? Refresca essa cabeça! Não pensa uma coisa absurda dessa, não! Há quanto tempo nós nos conhecemos? Eu fui amigo de seu pai, de sua mãe! Eu conheço sua família!
---- Pelo amor de Deus, não vendam pinga pro Fábio, não!
Num fim de ano, Cleir fugiu com o doutor. Fábio quase morreu. E quando alguém lhe perguntava:
---- Fábio, onde tá sua mulher?
Ele respondia:
---- Tá dando igual galinha, lá na capital!
Os homens estavam todos sentados, um ao lado do outro, no meio-fio. Cheguei cumprimentando:
---- 'Dia, Capivara.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Ladico.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zefino.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Luiz.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Quimba.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Maria.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Periquito.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Juca.
---- 'Dia.
---- 'Dia, De Noite.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Chico Sanfona.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Capacete.
---- 'Dia.
Era muita gente! Ou, como preferia o Puxa-Saco, estava cheio de ninguém ali!
Eu demorei a observar que, embora estivesse quase na hora do almoço, todos os homens estavam sentados, sem trabalhar, até àquela hora. Em condições normais, eles já estariam sujos, suados, fedorentos.
---- Por que vocês não estão trabalhando?
---- Sabe ainda, não?
---- Não!
---- Foi o patrão!
---- O que aconteceu?
---- Morreu!
---- O quê!?
---- É!
---- Onde?!
---- Lá na capital!
---- Nossa!
---- Morreu na fila de banco!
---- De quê?
---- Do coração!
---- E a obra?
---- A obra, pára!
Eu fiquei parado, calado, olhando para o prédio, com as mãos nos bolsos das calças. Os homens continuaram sentados, em silêncio, esperando não sei o quê.
A manhã era muito clara, a luz reverberava na superfície das coisas. Parecia que alguém pendurara um grande pote de ouro, cheio de raios, luminoso, lá no alto, no céu.
(romance; segundo livro da série “JORNADA”)
(ainda não publicado)
Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encarregado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras páginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, perguntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!
Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície lixada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquentar o almoço dos peões.
Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpinteiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, batendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digitou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra enxugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!
---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, falando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!
Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos compradores dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como autônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que morando e trabalhando na mesma cidade.
Sexta-feira! Toda sexta-feira a rotina era a mesma: cachaça, zona e, no sábado de manhã, ressaca. Para outros ainda era: cachaça, zona, cadeia, ressaca. E, ainda para outros, era: cachaça, zona, cadeia, ressaca e, seis dias depois, gonorréia.
Ivair se levantou. Foi ao balcão:
---- Duas pinga! Uma Coca!
O rapaz negro pegou dois copos, chegou-os à torneira do barrilzinho. Pôs sobre o balcão. Abriu a geladeira. Tirou um refrigerante. Topete pegou um copo, virou na boca. O outro ele levou, junto com a pinga, para Calcanhar de Cebola. A mulher arredou-se mais para beirada do banco e colocou o copo e a garrafa sobre ele. Topete se sentou na outra beirada. Calcanhar de Cebola misturou a Coca com a pinga e começou a beber.
Joãozinho Botina estava vermelho. Ele via a mulher gritando na sua cara, Topete gesticulando sem parar, como dois seres disformes. A luz amarela parecia escorrer pelas paredes. Sem pensar muito, ele tirou uma garrucha de sob a camisa. Apontou para qualquer lugar e as paredes pareciam balançar e entortar na sua frente e puxou o gatilho. Depois, virou as costas e saiu desabalado, tropeçando, caindo, correndo. O rapaz desligou o som.
Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.
Eu e o rapaz do balcão ficamos desnorteados. Algumas pessoas apareceram à porta e eu lhes pedi que arranjassem um carro. O meu cinema acabara! Levamos o Ivair para o hospital. A mulher desaparecera. O doutor de plantão examinou o ferido. Disse que o caso não era grave. A bala rasgara realmente a carne, donde o sangue, mas não atingira qualquer órgão. O cara ficou na enfermaria. Eu fui sozinho e a pé para casa.
Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara bebendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.
À noite, nos encontramos. Madalena vestia a mesma roupa da noite anterior. Estava sóbria. Daquele jeito, sem zonzura, pude ver que ela era muito mais feia do que eu achara antes. O cabelo era fino, mas pouco, e muito anelado. Seus dentes superiores eram pequenos demais em relação aos de baixo.
---- Não vai estudar hoje, não?
---- Estudar?! Que idéia é esta?
---- Você me falou ontem. História de pós-graduação...
---- História mesmo! Não sei o que é livro e nem quero saber! Mal e mal sei ler algumas palavras!
Fez silêncio por um instante.
---- Vamos onde?
---- Sabe dançar?
---- Muito pouco.
---- Qualquer coisa serve.
Tirou a roupa. O corpo eu já conhecia: peitos pequenos, caídos; pernas finas, lisíssimas. Abriu as pernas. Demorei a gozar. Ela também estava sem ânimo. Não correspondeu. Eu falei:
---- E a minha proposta?
---- Qual?
---- De você dormir aqui com freqüência?
---- Até os dias em que eu estiver menstruada?
---- Lógico que não! Não quero saber de mulher com a avó atrás do toco me enchendo o saco, não, porra!
---- Quero!
---- Vou lhe dar uma chave. Sempre que vier, não traga ninguém e nem deixe a Zefa vê-la entrando aqui nem saindo; seja a qualquer hora, entendeu?
---- Certo!
---- Ao sair, feche a porta!
---- Vou fazer café.
---- Faça.
Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair correndo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?
Havia já algumas semanas que eu trabalhava no prédio quando, um dia, às nove horas, o benedito chamou. Nem todos ouviram. Alguém subiu pelo guincho, entrando em todos os andares, avisando, aos gritos:
---- REUNIÃO NA GARAGEM! VAI ACONTECER UMA REUNIÃO IMPORTANTE NA GARAGEM! O DOUTOR AMORIM TEM UM RECADO PRO PESSOAL NA GARAGEM!
Descemos rápido pro local. Era a primeira vez que o manda-chuva reunia o pessoal, por isso os operários não esperavam boa coisa.
Então, o doutor finalizou;
---- Não se esqueçam do que eu estou dizendo: votem em meu candidato... e digam para suas famílias também! E expliquem lá pra elas tudo direitinho! Direitinho!
Em seguida, os dois desceram dos caixotes, viraram as costas para os operários, tomaram a direção da rampa e desapareceram. O Puxa-Saco e o Coquinho foram atrás.
Os operários ficaram imóveis por um momento, um olhando pra cara do outro. Logo, logo veio o som do benedito sendo acionado. Devagar, nós começamos a subir os andares. Uns pelas escadas, outros pelo guincho. Hora de retomar o serviço.
Pouco tempo depois de o doutor ter saído com seu candidato, o benedito chamou pro almoço. Nós nos amontoamos em silêncio na garagem. Coquinho montava guarda no fim da rampa. Após o almoço, quando todos procuravam um lugar para se esticar, Maneco quebrou o silêncio e trouxe à tona o assunto:
---- Tem gente qui acha qui nóis é retardado!
---- Eu fiquei puto! A velha me enchera o saco, me fizera raiva. E eu lá, de dia, de noite, aos domingos! Ela me chamando de porco, de lerdo, de não sei mais o quê! E agora vinha com palhaçada! Cheguei a boca no ouvido da velha e gritei:
---- VELHA FILHA DE UMA PUTA! MUCHIBENTA! PAGUE SEM RECLAMAR QUE EU NÃO QUERO LHE VER NA MINHA FRENTE NUNCA MAIS! E VÁ TOMAR NO CU!
---- Pedro ficou muito vermelho. A velha ficou pálida. Passou a mão no dinheiro e pagou depressa.
Nós saímos.
Quando parei de falar, notei que Coquinho me observava atento, do lado direito, com a bunda encostada na parede. Não resisti à tentação de provocá-lo. Disse:
---- Bom dia, Coquinho!
Ele se enervou. Desceu os braços ao longo do corpo, abriu a imensa boca babenta e fuzilou:
---- VAI TOMAR NO CU, DISGRAÇADO! FILHO DE UMA PUTA!
Os homens tamparam as bocas com as mãos para esconder o riso, virando as caras para o lado. E ele continuou:
---- PINGUÇO! VAGABUNDO! OCÊ VAI MORRÊ CEDO! OCÊ VAI VÊ! CACHAÇA VAI TE MATÁ!
O benedito assinalava o fim do almoço e eu subi correndo as escadas. Quando estava no quarto andar, ainda podia ouvir a voz do maluco praguejando, lá em baixo, na garagem.
Toda vez que eu me embriagava na noite anterior, nem tentava disfarçar os sinais da bebedeira, de manhã. Eu não conseguia rir. Não agüentava ficar sem um encosto qualquer e jamais olhava para a frente. Só para o chão. A maior vítima de tudo isso era o trabalho. O rendimento ia a zero. A toda hora eu parava pra descansar e, quando tinha certeza de que o Puxa-Saco não apareceria no meu setor, sentava-me em uma lata de tinta, dobrava os braços sobre os joelhos, deitava a cabeça sobre os braços, e ficava horas a fio sem me mover. Quando era inevitável que fizesse qualquer coisa, eu procurava algum acontecimento bom da minha vida e o ficava relembrando durante o expediente, de modo a não me lembrar da obrigação do dia. Naquela manhã, eu tinha chegado arrasado à obra. Pensei: -- Vou ficar me lembrando, até mais não poder, da trepada mais gostosa que já dei até hoje! Ao chegar perto do guincho, Zé Maria perguntou:
---- Você bebeu ontem?
---- Enchi o rabo!
Eu fora à Zona. Havia uma mulher parada, com os braços cruzados, encostada à porta de uma das muitas casas velhas e decadentes da vila. Era baixa, falsa-loura, meio coroa de olhos castanhos meigos. Estrias profundas sobre os lábios. Em volta dos olhos, mil e um pés de galinha. As pelancas já começavam a dar trabalho. Dentes amarelados postiços aparecendo por detrás dos lábios carnudos. Boca toda lambuzada de baton. Brincos de latão ou alumínio. Vestido surrado vermelho. Sapatos também vermelhos, esfolados, bicudos, feios.
---- Quer dar uma trepada de noite inteira comigo, amorzinho? - perguntei.
---- Não posso, querido! - ela respondeu, educada - toda terça-feira um cara dorme comigo. Se pudesse eu ia mesmo!
---- Pois é, eu tô a fim de uma perereca!
Quando coloquei o pé na plataforma, senti a mão de alguém em meu ombro direito. Olhei. Era Coquinho.
---- Zé Antônio tá chamano ocê lá no iscritório.
---- Pra quê?
---- Sei lá!
Entrei no escritório e me sentei à frente do Puxa-Saco.
---- Júlio César?
---- Hein?
---- O que tá acontecendo aí na obra?
---- Hein?
---- Essas conversas que estão saindo aí?
---- Sei não.
---- Como não sabe?! Eu tô sabendo!
---- É? Mas eu não tô!
---- E não é só isto, não!
---- O que tem mais?
Apareceu a mulher. Era baixinha, magra, morena-clara, risonha. Cara chupada. Estava enrolada num roupão de banho. Os cabelos negros e molhados caindo sobre parte de seu rosto não impediam que se notasse sua feiúra. Trepar com ela não era uma perspectiva das mais animadoras, mas, como estava com fome, decidi-me por ir com ela.
---- Você é o cara de quem minha colega falou?
---- Eu mesmo!
---- Vem comigo!
---- Que sociedade, cara?
---- As pessoas importantes!
---- Huumm...!
O meu saco já estava arrastando lá no chão. Logo antes do almoço, aquela bosta vinha me encher a paciência! Era dose!
---- Zé Antônio - eu disse - tudo que eu faço dentro da obra ou fora dela está dentro da constituição. São atos legais. Além disso, a liberdade de expressão é garantida na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
---- Ah, é? Pode até ser, mas o doutor não gosta! E ele não gostará de saber que isto acontece aqui dentro da obra! E o pessoal da cidade, o povo mais antigo, persegue as pessoas que tenham tendências e opiniões contrárias às suas, principalmente políticas!
---- Foda-se! Tá escrito na constituição!
---- Júlio César, posso lhe contar uma história?
---- Real?
---- É!
---- Não! Não me interessa!
---- Mas eu vou contar assim mesmo!
---- Oh, saco!
---- Apareceu aqui uma vez um rapaz...
---- Aqui onde?
---- Na cidade. Apareceu aqui e trabalhou aqui e estudou. Ele tinha as mesmas idéias suas.
O que o sujeito sabia de minhas idéias, porra?!
---- Estudou na universidade?
---- Isso! E vivia criticando a sociedade: fulano é isso, sicrano é aquilo, beltrano é assim...
---- Mas pode! Tá na constituição!
---- ... criticava o pessoal que ia à reunião do Lions...
---- ... e a constituição?
---- ... o pessoal que ia à reunião do Rotary...
---- ... e a constituição?
---- ... os doutores...
---- ... e a constituição?
---- ... os professores...
---- ... e a constituição?
---- Vamos começar? - Gracinha perguntou.
---- Vamos. Você por baixo ou por cima, primeiro?
---- Por baixo.
Gracinha se deitou de costas e abriu as pernas. A mulher me pegou no meio das coxas. Passava os membros lisos, lisos, entrelaçados em volta de meu tórax, para cima e para baixo. A gente se amava.
---- Ai, Júlio César, sua pica é gostosa demais! Ai! - gemia ela, nos meus ouvidos.
Nós trocamos beijinhos, de olhos fechados, na penumbra do quarto. Só o abajur estava aceso. Quando eu a penetrava, ela firmava a sola dos pés sobre o colchão e levantava o corpo. Trazia a boceta para encontrar o meu pau. Nós ficamos nos socando até que eu a empurrei com força sobre a cama. Ela gozou e gemeu. Me apertou com mais força ainda. Me passou vagarosamente a mão pela nuca. Eu desfaleci em cima dela. Fiquei exausto, com os dois braços estendidos ao longo de sua cabeça. Ficamos, depois, deitados em silêncio. Ela fumou um cigarro. Fiquei de barriga pra cima e de olhos fechados. Lá de fora, vinha o barulho do vento soprando as folhas das bananeiras, do farfalhar das folhas das bananeiras, das águas do rio que passava logo atrás da casa se chocando contra as pedras do leito.
Após algum tempo de descanso, recomeçamos.
Eu disse recomeçamos; na verdade, foi Gracinha quem o fez. Ela ficou de lado na cama. Eu continuei de olhos fechados. Ela, então, começou a me alisar o rosto. Mordiscou-me a ponta do nariz. Foi descendo com as mãos pelo meu peito, enfiou o dedo indicador no meu umbigo. Abri os olhos. Seus peitos estavam na altura de minha boca. Apertei-os com carinho. Mordi-lhes os bicos com os lábios pra não doer. Gracinha continuava me passando a mão. Outra vez, meu pau endureceu. Gracinha o segurou, ficou olhando em silêncio pra ele por um momento, depois, disse:
---- Hummm, grande!
---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondiam!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais independente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada? ---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondiam!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais independente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada?
O Puxa-Saco ficou olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra cara do Puxa-Saco com cara de não-tô-nem-aí.
Então, depois de termos ficado alguns minutos nos analisando, eu lhe perguntei:
---- Escute, esse sujeito que inventou essa lei especial de isolamento pro rapaz era o prefeito da cidade, você disse?
---- ERA! - gritou ele.
---- Mas isso é ditadura, moço! O isolamento era um sistema usado no comunismo da extinta União Soviética. Os dissidentes, os linguarudos, apodreciam nos campos gelados da Sibéria!
(As coisas não apodrecem no gelo, mas, o bobo provavelmente nem sabia disso!)
---- NÃO INTERESSA! ELE ERA O PREFEITO!
---- Mas como o pessoal da cidade votou nele?
Eu perguntei e fiquei encarando o Puxa-Saco. Ele ficou, durante algum tempo, olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra ele com cara-de-não-tô-nem-aí.
---- Como? - insisti.
O Puxa-Saco, então, ficou sem graça e virou a cara-de-bosta pro lado da estante encostada na parede à sua direita e não me respondeu. Eu, então, me lembrei da reunião na garagem: a pressão! Era de praxe!
Eu nunca mais vi Gracinha. Algum tempo depois, alguém me disse que ela saíra da Zona e se juntara com um velho grã-fino da periferia da cidade. E que ela passara as mãos nos pertences do velho e até o chapéu panamá legítimo que ele usava pra cobrir a careca tinha desaparecido. E que ela xuxara a perereca com tanta fúria no velho que ele entortara o esqueleto pra frente e pro lado e andava com dificuldade, arrastando os pés e trombando pelas paredes e estava com voz de taquara rachada, falando guinchando como um rato quica. E que, mesmo quando estava usando dentadura, a boca muchibenta do velho ficava chupada pra dentro, parecendo um cu de galinha.
A mulher acabara com o cara na cama!
Aquele dia amanhecera muito chuvoso. Olhando-se lá de cima, da cobertura do prédio para a rua, quase nada se podia ver por causa da cortina de água. O riacho atrás do prédio tinha transbordado e a água já ameaçava invadir a garagem. Trazer material do almoxarifado para a construção estava difícil: a chuva era intermitente e a lama cobria todo o chão. A plataforma do guincho estava que puro barro e, pra complicar, vários homens haviam faltado.
Parecia que o Esmeraldo escolhera logo o pior dia pra chegar ao serviço quase caindo. Os olhos vermelhos como olhos de pomba. A carapinha, mais ouriçada do que nunca. Seu cheiro de suor era penetrante e seu chulé estava deveras incomodando. Provavelmente não dormira à noite. O bafo de cachaça que exalava deixava notar que passara a noite em claro, talvez no jogo de baralho e, indubitavelmente, na pinga. Para testá-lo, eu disse:
---- Esmeraldo, traz água lá de baixo pra mim?
Lá estava o Esmeraldo, na sala de chão de terra batida, esticado no caixão. Um lampião a querosene empesteava o ar com um cheiro horrível. A fumaça fedia. Finalmente, ele tirara as botas e lavara os pés. Tinham lhe calçado meias e cortado a barbicha desgrenhada. Uma tira de pano amarrada em volta da cabeça conservava-lhe a boca fechada, escondendo os pedaços de dentes. Duas velhas vestidas de chita montavam guarda, sentadas em tamboretes. Rezavam o terço.
O pessoal, à vontade, bebia cachaça e ria às gargalhadas no terreiro. Encostei-me a um mourão da coberta, sem vontade de ficar ali e arrependido de ter vindo. Uma negra de uns trinta anos apanhou uma garrafa de pinga e se aproximou de mim com um copo na mão.
---- Coitado do Esmeraldo! - eu filosofei - Nasceu pobre, ficou miserável, carregou massa, carregou tijolos, carregou tábuas, carregou pedra, foi explorado, foi humilhado, foi massacrado, caiu do andaime, se fodeu - morreu! Vai ser enterrado neste fim de mundo, no meio do mato, onde nem luz nem estrada tem! Ninguém vai saber que ele existiu!
Puto, certo dia ele tirou a calça e a cueca dentro da obra onde trabalhava, durante o expediente, e ficou girando sobre si mesmo e gritando:
---- MARINETE, FILHA DE UMA PUTA! MARINETE, FILHA DE UMA PUTA!
O engenheiro, o patrão, chegou na hora! Empertigado! Doutoral! E trazia a esposa junto! Quando eles entraram no cômodo, Periquito parou. Ficou de pé na frente do doutor, sorrindo sem graça, com o peru murcho apontando pra baixo. A mulher do patrão fingiu seriedade, mas ficou olhando gulosa pro pau do rapaz. O doutor, vermelho, gritou:
---- QUE BONITO HEIN, VAGABUNDO? EU NÃO O MANDO EMBORA AGORA POR CAUSA DAS DÍVIDAS QUE VOCÊ FEZ PARA IMPRESSIONAR AQUELA PROSTITUTA!
Lixando, lixando! Era dose, mas fazer o quê?
Cleir se ajeitou de costas e abriu as pernas. Fábio tinha intimidade zero com aquilo - boceta - mas, mesmo assim, tinha alguma teoria de ouvir falar. Sabia que o hímem das moças - que os homens desbocados da obra chamavam de cabaço - oferecia resistência nas primeiras vezes; que havia sangramento no seu rompimento; que as mulheres sentiam um misto de prazer o gozo no ato do amor, na primeira trepada, e que o clitóris - que os homens desbocados da obra chamavam de crica ou grelo - costumava ficar duro e saliente, apontando pra fora da vagina - que os homens desbocados da obra chamavam de xoxota ou trem bão.
---- Aquela mulher minha é uma vagabunda, porra! Ficou namorando comigo bonitinho, parecendo uma menininha, mas só na noite de núpcias descobri que ela não era mais virgem! Tava com a boceta arrombada, a vagabunda! Filha de uma puta! Safada!
Alguém sempre falava:
---- Mas que idéia foi essa sua de deixar pra enfiar o peru só no casamento? A gente come é antes, logo no começo do namoro! Não se usa isso de ficar pajeando a noiva mais não!
E Fábio gritava:
---- VOCÊ É UM SEM-VERGONHA, PORRA
Quando alguém lhe indicou um doutor que estava saindo de carro com Cleir, Fábio, uma noite, o esperou até tarde, na garagem do prédio onde ele morava:
---- Doutor, o senhor é meu amigo! Larga a minha mulher! Não faz isso comigo, não! Eu morro!
O doutor se fez de desentendido. Gentilmente, ele falou:
---- O que é isso, rapaz? Refresca essa cabeça! Não pensa uma coisa absurda dessa, não! Há quanto tempo nós nos conhecemos? Eu fui amigo de seu pai, de sua mãe! Eu conheço sua família!
---- Pelo amor de Deus, não vendam pinga pro Fábio, não!
Num fim de ano, Cleir fugiu com o doutor. Fábio quase morreu. E quando alguém lhe perguntava:
---- Fábio, onde tá sua mulher?
Ele respondia:
---- Tá dando igual galinha, lá na capital!
Os homens estavam todos sentados, um ao lado do outro, no meio-fio. Cheguei cumprimentando:
---- 'Dia, Capivara.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Ladico.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zefino.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Luiz.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Quimba.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Maria.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Periquito.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Juca.
---- 'Dia.
---- 'Dia, De Noite.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Chico Sanfona.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Capacete.
---- 'Dia.
Era muita gente! Ou, como preferia o Puxa-Saco, estava cheio de ninguém ali!
Eu demorei a observar que, embora estivesse quase na hora do almoço, todos os homens estavam sentados, sem trabalhar, até àquela hora. Em condições normais, eles já estariam sujos, suados, fedorentos.
---- Por que vocês não estão trabalhando?
---- Sabe ainda, não?
---- Não!
---- Foi o patrão!
---- O que aconteceu?
---- Morreu!
---- O quê!?
---- É!
---- Onde?!
---- Lá na capital!
---- Nossa!
---- Morreu na fila de banco!
---- De quê?
---- Do coração!
---- E a obra?
---- A obra, pára!
Eu fiquei parado, calado, olhando para o prédio, com as mãos nos bolsos das calças. Os homens continuaram sentados, em silêncio, esperando não sei o quê.
A manhã era muito clara, a luz reverberava na superfície das coisas. Parecia que alguém pendurara um grande pote de ouro, cheio de raios, luminoso, lá no alto, no céu.
A SERRA EM CHAMAS - (a morte do Caraça-romance)
Em 1768, um misterioso imigrante português – o Irmão Lourenço de Nossa Senhora (cujo nome, antes de receber a Ordem Terceira de São Francisco, era Carlos Mendonça de Távora) - subiu a serra do Caraça e, encantado com a beleza da paisagem, decidiu erguer, no vale, no sopé das montanhas, um - como ele chamou – hospício, ou casa de repouso e meditação. Lançando mão de sua pequena fortuna, parte trazida de Portugal e parte adquirida provavelmente no comércio de pedras preciosas e ouro, e com a ajuda de seus escravos, construiu dois enormes conjuntos de aposentos e uma pequena capela central, sendo a ermida inaugurada em 1774, para onde, após a chegada de padres europeus, primeiro portugueses e, depois, franceses (vieram também padres de outros países europeus: holandeses, belgas, italianos, suíços, poloneses, espanhóis, persas), cuja vinda fora ordenada por D. João VI, a quem o Irmão Lourenço doara as terras e as construções, acorriam os fiéis moradores do pé da serra e das cidades das redondezas para as celebrações. No Caraça foi instalado, em 1820, um colégio de meninos, vontade do Irmão Lourenço, após o aumento em suas dependências. Devido à excelência de seu ensino e à rigidez de suas normas de conduta, estabelecidas pelo padre português que foi o primeiro superior do Caraça, o padre Leandro Rebello de Peixoto e Castro, o Caraça se tornou o colégio mais afamado do Brasil. Inúmeros políticos, médicos, engenheiros, professores, advogados, escritores, profissionais liberais de várias áreas tiveram os alicerces de sua formação moral e intelectual fundados no Caraça. Para lá os pais de boa fortuna mandavam seus filhos pequenos em busca de sólida formação humanística.
Na madrugada de 28 de maio de 1968, um fogareiro esquecido aceso por um aluno que estivera trabalhando na encadernação no princípio da noite provocou um devastador incêndio que pôs fim ao Caraça como instituição de ensino. Dois terços de sua biblioteca, pejada de livros raríssimos, se perderam no incêndio. A parte interna do prédio onde funcionavam - além da biblioteca - os salões de estudo, o laboratório de química e física, a enfermaria, as salas de aulas, e os dormitórios, ruiu. Dentro de três anos, o Caraça faria 150 anos de funcionamento como colégio/seminário. Os padres lazaristas já estavam preparando as festividades. Ao invés disso, no dia 28 de maio de 1968, os alunos foram mandados de volta para suas casas. A era Colégio do Caraça chegara ao fim.
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
romance
Em fins do século dezessete e princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas nas então Minas, que viriam, mais tarde, a serem Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram, aos milhares, para o inóspito desconhecido. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros e faiscadores continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas e margens dos rios mineiros literalmente brilhavam no escuro.
Mas nem só de ouro e diamantes era rico o solo de Minas Gerais. Com a decadência de quase todas as lavras (pelo menos as de fácil extração), outro tipo de metal, embora não tão valioso em menores quantidades, veio ocupar o lugar dos metais nobres: o minério de ferro. E, neste setor econômico, Minas Gerais se revelou privilegiado. Minérios de variáveis teores ferríferos foram encontrados em vários locais do estado, e seu achado coincidiu com a incipiente, mas crescente, industrialização do Brasil e também do mundo, e o país se tornou um grande exportador de minério de ferro e, posteriormente, de seus produtos industrializados, além de fornecer matéria beneficiada para as indústrias do país. Mas cedo a instalação de altos-fornos trouxe um tipo de degradação ao meio ambiente – a destruição das matas nativas -, embora em tal época esta preocupação não fizesse parte na discussão dos temas relevantes. Devido à necessidade de carvão para as siderúrgicas, as matas próximas a elas cedo foram dizimadas, e se tornou necessário buscar carvão cada vez mais longe.
Quase ao lado de Belo Horizonte (a cem quilômetros de distância), cercada por extensas matas de eucaliptos e assentada entre montanhas ferríferas (cuja poeira rubra fez com que seus habitantes ganhassem a carinhosa alcunha de pés-de-pomba), fica a cidade de Barão de Cocais. Pequena, mas, dinâmica e de intensa vida sócio-cultural, Barão de Cocais, cidade histórica, possui, possivelmente, as jazidas de minério de ferro mais próximas de sua siderúrgica (embora minério de baixo teor), estando esta, na verdade, assentada sobre antigas jazidas desativadas. Se as terras mineiras têm morros, Barão de Cocais os tem em excesso, o que faz com que seus bairros estejam, na maioria, espalhados entre e sobre montanhas e dêem à cidade uma aparência de grandeza geográfica que ela, na realidade, não possui. Por fazer parte do quadrilátero ferrífero, a cidade é fornecedora e via de transporte de minério de ferro bruto e beneficiado (aço e gusa) para o exterior, cujas cargas são levadas por composições de centenas de vagões puxadas por enormes e potentes conjuntos de locomotivas. Não sem alguma razão, seus habitantes, assim como provavelmente os das outras cidades do quadrilátero, resmungam contra o fato de seus recursos naturais estarem sendo subtraídos sem que eles vejam a cor do dinheiro ou sem que nada seja colocado no lugar das enormes crateras produzidas pelas escavações (quando muito, as siderúrgicas 'passam mel na boca dos habitantes', camuflando a situação com projetos ambientais nas áreas devastadas).
Cássio, carroceiro, mulato-escuro, quase negro, troncudo, rosto com acentuadas marcas como que de cansaço, baixo, cabelos estranhamente lisos, levemente anelados penteados para trás, um alto topete que costuma cair sobre a testa, lábios enormes, mangas da camisa dobradas de modo a exibir os músculos riscados por veias salientes, peito da camisa aberto, toma uma bebida destilada e, como tem se tornado recorrente, olha para a parte mais antiga da cidade, a rua estreita, logo ali na frente, a Rua das Três Bicas, que, em tempos passados, levava às antigas carvoarias, e pensa: seus antepassados, alguns dos quais ele nem havia conhecido, tinham passado por aquela rua estreita, que conduzia ao que restava de uma longínqua floresta nativa, conduzindo tropas de burros, no transporte de carvão. Seu pai mesmo – Zé do Burro –fora um destes tropeiros, e ele o tinha acompanhado no trabalho algumas vezes, antes que a profissão começasse a definhar (assim como seus parentes) até desaparecer por completo (pelo menos na região carvoeira). Eram recordações que ele não apreciava, mas não havia como evitar: o pulo da cama de madrugada (os galos nem ao menos haviam cantado ainda!), um café tomado às pressas (tempo era dinheiro: quanto mais carvão os tropeiros entregassem na siderúrgica, mais grana eles ganhavam, embora todos vivessem na mesma penúria), e a cavalgada até à carvoaria. Ali, todos tinham de colocar a mão na massa: tirar o carvão dos fornos, carregar, encher os balaios, amarrar sobre os lombos dos animais de modo que não caíssem, e vir tocando a tropa, os garotos ao lado dos animais, vigiando para que nenhum deles debandasse, um deles guiando a madrinha, que era a “responsável” pela direção do grupo de animais. Ao fim da jornada, descarregavam às pressas e regressavam para a mata: iam em busca de mais carvão. Pelo menos na volta, havia um alívio: todos podiam voltar montados nos animais que aceitavam montaria.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez por outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
Este o dilema de Turbino: não era exatamente um beco sem saída (ele tinha a vida pela frente, podia se safar!); era uma encruzilhada - e ele tinha de tomar uma decisão, procurar um rumo. Até que, numa tarde, o destino, imprevisível, na pessoa de um moço extremamente educado e bem intencionado, 'batesse à sua porta'.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como um vistoso condor de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde lhe veio o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família.
Turbino riu.
“Você está mesmo tramando alguma coisa?”
“Eu não! Tô tramando nada!”
“Quantos anos você tem?”
“Quatorze.”
“O que você pretende fazer da vida, moço?”
“Eu? Não sei ainda.”
“Você devia ir para o Caraça.”
“Caraça?! E o que eu vou fazer no meio daquelas montanhas?”
E Cássio, espicaçado pela lembrança de seus antepassados, aos molambos, correndo ao lado das tropas pelas ruas da cidade, em direção aos depósitos da siderúrgica, e incapaz de se desgarrar da lembrança das casinhas miseráveis no fim da rua, moradas de seus antepassados (“incrivelmente, ainda piores do que a minha!”), da ida de suas gerações anteriores em busca da água da bica, “a qualquer hora do dia ou da noite, no frio ou no sol, ou na chuva!”, tremendo de excitação, tomou o filho pelo braço, levou-o à rua estreita por onde os tropeiros haviam passado dirigindo os animais em direção às distantes carvoarias, e lhe mostrou as residências antigas.
“O seminário é o lugar dele, 'seu' padre! Meu filho tá desperdiçado nesta cidade. Nunca vi gostar de religião assim! Semana que vem mesmo ele disse que ia entrar na Congregação Mariana!”
A mãe perguntou: como vamos pagar pelo colégio, padre? Nós não temos condições!
O padre respondeu:
“A providência divina supre as necessidades do seminário, minha senhora. Não se preocupe!”
“Ah, que ótimo!”
À saída, o padre afirmou, sorrindo:
“Vai dar tudo certo! Eu tive uma impressão muito boa!”
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados.
Rodaram mais uns poucos quilômetros e o caminhão deixou Turbino e os outros alunos à porta da construção, a jóia do Irmão Lourenço de Nossa Senhora - a ermida do Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens ou, como os padres não se cansavam de dizer – o Imperial Colégio do Caraça. Mais tarde, ele se lembraria:
“Logo na chegada, antes mesmo de descermos da boléia do caminhão, alguém me apontou um prediozinho de dois andares, logo à entrada do prédio principal, e afirmou: chama-se Sobrado Afonso Pena. É uma homenagem a um dos grandes homens de Minas, da política mineira, que estudaram aqui. É a morada das irmãs da caridade que auxiliam no seminário. E aqui está – o sujeito apontou para o prédio maior ao lado -, em toda a sua grandeza, a construção de pedras enormes, quadradas, feita a dezenas e dezenas de anos atrás: a ermida do Caraça!”
Turbino simpatizou com o padre superior, com sua fisionomia tranqüila, seu rosto chupado, e com seu jeito manso de conversar. E o padre, talvez temeroso de que os novatos se amedrontassem excessivamente com o grau de exigência, explicou, pressuroso, que haveria vários suetos durante o período letivo, horas preciosas de descanso para que os alunos esfriassem as cabeças; ('ninguém ia ficar doido por estudar em excesso!'). Sabendo que estava falando grego, pois, ninguém sabia o que era sueto, ele esclareceu: sueto e folga das obrigações eram a mesma coisa. Aos domingos, às quartas-feiras após o almoço e também nas tardes de sábados, o tempo ficava livre para os apostólicos fazerem o que quisessem – desde que tudo estivesse dentro das normas, claro!
Turbino, muito tempo depois, ainda se recordaria: “Eu fiquei até com vontade de rir! Após o almoço, outro moço juntou os novatos (todos ainda crianças, menos ele, que já estava caminhando para os quinze anos!), e nos arrastou pelos corredores, apontando os quadros nas paredes, e dizendo: este é o Irmão Lourenço, o fundador do santuário, cuja vida e vinda para o Brasil são cercadas de mistérios. Aqui está o retrato de D. João VI, grande benfeitor da Congregação dos Padres Lazaristas (seus membros são conhecidos como padres e irmãos vicentinos ou lazaristas porque a primeira casa da Congregação, em Paris, se chamava «Casa de São Lázaro), a quem doou a ermida e as matas do Caraça. D. João VI deve ser proclamado o primeiro e maior benfeitor, o mais ilustre e benemérito paraninfo do Caraça! E este é D. Pedro I, que visitou nosso santuário em 1831, e, mais tarde, cinqüenta anos depois, veio seu filho, D. Pedro II, que está neste outro quadro. Observem os traços suaves e precisos do pintor. Aprendam a enxergar as sutilezas de uma pintura! Isto faz parte de sua formação.” Turbino, mãos às costas, curioso, ia acompanhando.
“Eu... apreciando quadros!” Era isso: jamais Turbino se imaginaria olhando quadros em paredes! Mas, ali estava ele. E estava achando os troços interessantes e se sentindo importante!
Ao acabarem as andanças, Turbino deduziu que ele havia tomado seu primeiro banho de cultura e de arte – e que ele, imbuído do espírito caracense, teria, dali para a frente, de percorrer um caminho de santidade!
“Lembrem-se – ao término, o guia enfatizou– pisar no Caraça é pisar na história!”
Depois, a surpresa maior:
“Pra quem tava acostumado a ir às aulas quando queria, ou a ir pra fazer bagunça e brincar, ou pra quem não tinha hora pra estudar, foi um choque e tanto! Era estudo e aula o tempo todo... com hora marcada! E reza e orações! Muitas! Começava cedo! De madrugada, o padre chutava as portas dos dois dormitórios, acordando a turma! E, no decorrer do dia, ficava por conta do sino. O sino, pendurado numa trave no pátio do recreio, dava o sinal. Era tudo recheado com o mais completo silêncio!”
Você tá entrando no Caraça pra ser padre mesmo?”
“Eu tô.”
“Que beleza, moço! Meu nome é Dirceu e o seu?”
(Mais tarde, o novato veio a saber que o moço, devido aos formato de seu rosto, tinha o apelido de Goiabinha).
“Turbino.”
“Você tem os braços musculosos, menino! Você trabalhava em alguma coisa?”
Turbino, que apreciava ser considerado trabalhador, respondeu, orgulhoso:
“Trabalhava sim; de padeiro em Barão de Cocais.”
“Que legal! E você fazia pães?”
“Não, eu apenas ia à padaria, enchia um balaio de pão, e saía vendendo.”
“Moço trabalhador! E você vendia no centro da cidade mesmo?”
“Nunca no centro. O patrão me mandava vender nos bairros mais distantes, onde os padeiros mais velhos não gostavam de ir!”
“Ahhhh, mas covardia! Um rapazinho tão novo! – fez o Dirceu.
E, voltando-se para a turma, exclamou:
“Vejam, gente, tem mais um padeiro no Caraça! Agora chegou o Padirin de Barão!” (mais um porque o seminário tinha um padeiro, irmão leigo, que era morador da ermida).
Os outros alunos riram e o padre chegou. Ao fim da primeira aula, o seminário inteiro sabia que o novato tinha sido padeiro – e que se chamava Turbino e seu apelido, de agora em diante, seria Padirin de Barão.
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
E Padirin foi descobrindo mais coisas:
“Quando eu tava lá na cidade, muitas coisas existiam e eu nem sabia; nem notava. O luar, por exemplo. A lua, pra mim, era um naco de queijo pendurado no céu, que ia crescendo e ficava inteiro, redondinho, uma vez por mês e, depois, ia diminuindo e sumia; ela lá em cima, no céu, e eu aqui em baixo, na terra; nada, além disso (não era de todo verdade: a lua era, também, o farol que iluminava o caminho quando ele, de madrugada, às vezes acompanhado de colegas, às vezes sozinho, ia roubar frutas em sítios alheios, passando no meio do mato). Aqui, no Caraça, pertinho do céu, ela como que ocupa um espaço enorme, e parece estar muito próxima da gente. E delinea perfeitamente as curvas e os contornos dos montes. E se pode ver as cruzes e figuras do Calvário, o cercado do cemitério, e as árvores lá longe, no Campo da Urbis, no caminho da cara do gigante. Eu aprendi a enxergar a lua, a beleza da lua contra o céu azulado. Muitos alunos, nos horários do recreio noturno, ficam olhando pra lua, de nariz pra cima – em silêncio. Depois, quando a lua tá a pino, eles formam uma rodinha e alguém sempre puxa uma música – Peixe Vivo, Luar do Sertão ou outra, muito famosa: “Para mim/a chuva no telhado/é cantiga de ninado, mas o pobre meu irmão...” – e as vozes, algumas não tão boas, enchem o pátio.” E, nas noites sem lua, as estrelas parecem mais numerosas; a escuridão, com o ar rarefeito, sem poluição, faz com que elas fiquem mais visíveis, mais distintas – e tremeluzentes. Como vagalumes prateados. Muitos alunos ficam olhando pro céu, embevecidos. Ficam de nariz pra cima, em silêncio. Perdem até a fala. Eu aprendi a enxergar as estrelas também – e até a escuridão mais fechada ficou interessante pra mim! Fico de nariz pra cima, em silêncio – até sem fala.
(Outra lembrança que marcou Padirin foi a descida da neblina, de madrugada, sobre o Campo da Urbis, o descampado enorme, coberto de vegetação baixa e retorcida, que levava aos lados do morro do Inficcionado. “Eu tava sem sono e tive a idéia de me levantar e chegar à janela do dormitório. Alta madrugada, todo mundo dormindo [silêncio mais absoluto!], e a neblina cobria o campo. A névoa me lembrou uma multidão de fantasmas, alguns mais densos do que os outros, disformes, frios, brincando entre os arbustos. E alguns fantasmas subiam rastejando, vagarosos, as encostas, e outros corriam, céleres, e se escondiam entre as pedras negras, no enclave entre os picos da Bocaina e do Inficcionado, bem na Cara do Gigante.”)
DaMata (Padirin se lembrava), moreno quase preto, por volta dos vinte e cinco anos de idade, baixo, forte, lábios muito finos, cabelo pixaim rente ao couro cabeludo (sementinha de mamão), cabeça com um feio cocuruto traseiro apontando para o alto, carregava caixotes de mercadorias de um lado pro outro no armazém do Moreira durante todo o dia e, à tarde, subia, esfalfado, a estrada que levava ao morro da Lagoa, a caminho de casa. Para espairecer – como afirmava – sentava-se ao lado do campo e via os moleques correndo atrás da bola. Ficava lá sentado e contava casos, os assuntos variando em torno do mesmo tema: mulheres. E alguns garotos, já atazanados pelos hormônios ebulientes da pré-adolescência, sentavam-se ao seu lado e ouviam e riam e iam aprendendo algumas lições. Alguns colegas da parte baixa da cidade, passeando, também costumavam acompanhar DaMata em sua subida pra casa e riam com suas histórias. Como quando ele reclamava (o que era recorrente) pelo fato de o patrão dar chutes na bunda da filha mais velha, de dezenove anos. “Ah, meu Deus, a popa da Giselda! Aquilo não é bunda: é uma obra de arte! Cheia... e redondinha! E o filho da puta acha a filha insolente, respondona, e mete o pé direito sem dó! Se ele não suporta a moça, porque leva ela pra trabalhar no comércio, onde se vive trombando com gente chata?
Mas, antes de o ato se consumar, ele tinha vindo para o Caraça. Agora, estava ali - não mais Turbino, mas, Padirin -, sentado ao lado de outro moreno, este de tez não tão escura quanto DaMata, pele bem tratada, sem barba, palavreado articulado, arrumadinho, de batina, jovem mas quase sem cabelos, dentes grandes e muito brancos, que o olhava muito de perto, bem dentro dos olhos, por detrás de grossas lentes, a mão direita apoiada no espaldar da cadeira, como se tentando lhe adivinhar os pensamentos, ler a sua mente (uma das primeiras coisas que Turbino observou, ao entrar no seminário, foi que parecia que os padres estavam sempre tentando adivinhar os pensamentos dos alunos): o conselheiro espiritual do Caraça. O sino do pátio havia batido, avisando do fim do recreio, e ele fora chamado ao quarto do conselheiro espiritual. Qual colega o havia chamado? Fora o Nelito? O Rosivaldo? Padirin ficara tão apreensivo que nem se lembrava! Pra que o chamava? Ele conversa com todos os novatos que chegam ao seminário. O que ele fala? Um monte de coisas! O que ele quer saber? Você vai ter a resposta para suas perguntas já, já. Padirin, receoso, entrou no gabinete do moço, e o moreno, após cumprimentá-lo apertando sua mão e lhe pedir que ocupasse uma cadeira ao seu lado, declinou seu nome e, como se não soubesse, perguntou pelo do novato: Turbino; (“Por que seus colegas o chamam de Padirin? Ah... então, ele já sabia! [vendia pães em Barão de Cocais]”) e lhe disse (Turbino notou que o padre tentava deixá-lo à vontade) ser o diretor espiritual do seminário.
E Padirin aprendeu com o conselheiro espiritual do Caraça que ele devia evitar, a todo custo, a masturbação (isso ele sabia o que era, não sabia? Padirin ia dizer que não sabia, mas foi honesto: ele sabia, pois que ele não batia uma puneta de vez em quando?! ), que mina as forças dos jovens, provoca cansaço e sonolência, e, mais importante, é um pecado gravíssimo contra o Criador: “Toda vez que você ejacula em vão, meu rapaz, você joga fora uma vida em potencial! E você pode estar desperdiçando um ser humano de alto cabedal!” Cabedal?! Padirin, assustado com o palavreado elaborado do conselheiro espiritual da Imperial Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, deduziu que teria de arrumar um dicionário e lê-lo, se pretendesse trocar de idéias com os padres do santuário!
Antes de deixar o gabinete do moço, este perguntou a Turbino a respeito de sua família, a profissão do pai (carroceiro?!), da mãe (ela trabalha fora? Não; é do lar – dona de casa), se tinha irmãos; tinha sim; apenas uma irmã, de vinte anos. E o padre, que estava tendo contato com Turbino pela primeira vez, lembrou-o, mais uma vez, dos votos de castidade, da luta contra o desejo sexual (quando você estiver folheando uma revista, meu filho, se, por um acaso, aparecer uma foto de mulher ou de mulheres em poses provocantes, indecentes, não olhe! Passe rápido as páginas ou se desfaça da revista! E, ao caminhar pelas ruas no mundo 'lá fora', ao passar por mulheres vestidas de roupas impróprias, saias curtas, blusas diminutas ou decotadas, abaixe a cabeça, vire o rosto para o outro lado: faça de conta que não vê!), e lhe ensinou algumas jaculatórias para serem ditas nos momentos de tormenta, e que ele lesse uma carta de São Paulo Apóstolo, na qual este afirmava que as tentações da carne são como que um espinho que o cristão tem de suportar, em sua busca da perfeição espiritual, da virtude. Em seguida, abriu uma gaveta, retirou um embrulho, uma caixa, de dentro, tirou umas balas de caramelo, e estendeu a Padirin:
“Tome; é para ajudar a adoçar seus primeiros dias no Caraça!”
Padirin riu, agradeceu, e deixou o gabinete. E foi chupando uma balinha e dizendo baixinho algumas jaculatórias que havia aprendido com o padre do Caraça, o diretor espiritual do santuário:
“Oh, Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”
“Nossa Senhora Mãe dos Homens, tende piedade de nós!”
“São José, rogai por nós!”
“Mas houve um ex-aluno que se emocionou, - não chorou, é verdade -, mas encheu o saco – e como!” A turma ficou muito irritada com o velhote e Padirin, em particular, tanto, que nunca mais se lembraria de seu nome. “Ex-aluno muito antigo, era professor de línguas, fizera muito pela educação, fundara colégios, sendo diretor de um - ficamos sabendo. Uma pessoa importante, uma das muitas que sempre apareciam para visitar o Caraça! Veio matar as saudades; demos azar, nós, os alunos, porque veio numa manhã de domingo, quando, após a missa, costumávamos nos preparar para os passeios ou jogos da tarde (os jogadores de futebol engraxavam suas chuteiras, os do pingue-pongue envernizavam suas raquetes, os das caminhadas preparavam suas vestimentas e calçados apropriados, etc.), e, neste domingo, antes mesmo do almoço, fomos avisados de que haveria uma palestra inesperada, um visitante ilustre desejava dizer algumas palavras, e tinha de ser naquela tarde – logo após o almoço -, porque, na manhã seguinte, ele tinha compromissos na capital e não poderia se demorar no santuário. De modo que haveria mudanças: nada de passeios ou jogos. Ficamos raivosos, depois, consideramos que talvez o visitante dissesse apenas algumas palavras rápidas e nossa tarde não ficasse completamente perdida. Não foi o que aconteceu:
Você sabe o que de fato você veio fazer aqui, Padirin? - o anjo de Turbino perguntou, com caras de poucos amigos. Sei; vim estudar e aprender o máximo possível. Então, dê um jeito! Suas notas não demonstram quase nenhuma atividade intelectual na sua rotina. Você nem joga bola, porque não tira notas melhores? E nem discute futebol! (Eram dois empecilhos que travavam o desenvolvimento de alguns alunos: futebol e discussões a respeito de futebol) Não sei se você sabe: os padres vigiam o comportamento dos alunos o tempo todo (não só os padres: alunos vigiavam alunos também! E os umbigueiros?!). E, dependendo de suas ações, eles lhe pedem pra ir embora. E, se você disser que não quer ir, que está gostando de ficar, eles exigem que o faça: eles o mandam embora. Colocam no carro e mandam entregar em casa. Você sabe disso.
Três semanas após a ida de Turbino, uma surpresa: num domingo, de manhã, Cássio subiu a serra. Foi em um ônibus de excursão e foi sem a esposa, que não se sentia confortável com igrejas ou religiões ou perto de padres. Foi conhecer o seminário e aproveitar para agradecer aos padres a aceitação do filho no colégio e, por sorte, dera de cara com o padre superior no adro da igreja. Cássio apresentou-se para ele, e o superior pediu que alguém chamasse o aluno, Turbino, e Cássio, embevecido, disse que ele não tinha palavras para agradecer a graça de seu único filho poder 'usufrutar' de tão gratificante oportunidade (meus amigos 'stão impressionados, “seu” padre. Um filho meu no Caraça! E, se ele for ordenado padre, então, vai ser a glória!)
Ouvindo o Irmão responder aquilo até com certa rispidez, o novato atentou para o fato de ele o estar sempre olhando com curiosidade nos horários de recreio e, mais de uma vez, o haver chamado de 'colegial', o que era um sinal de descaso, que denotava que o falante não acreditava na vocação sacerdotal do ouvinte. E o rapazinho deduziu: o Irmão Nylo não gostava dele e ele não atinava com a razão! E Padirin, que achava o Irmão um tanto bronco para ser responsável por alguma coisa (visto que o gorducho se intitulava 'mestre de cerimônias/guardião do santuário'), e também não o tinha em alto conceito, decidiu, mesmo assim, apelar pelos ensinamentos do seminário e tentar ser cortês com o Irmão e ganhar sua amizade.
O padre se sentava numa cadeira sobre um estrado elevado (o púlpito) e ensinava a matéria e pedia os “pontos”. E nunca deixava de dar deveres para “depois” – mas, “depois” o mais rápido possível. E muita redação. Redação?! Padirin era um dos poucos que não estavam dando conta dos “pontos”; era muita coisa, muita novidade, assuntos dos quais ele nunca tinha ouvido falar (quem diria que um dia eu ia aprender latim?! E pra que teria de aprender latim?!) E música?! Músicas, para ele, sempre tinham sido aquelas oriundas dos rádios; sanfona, viola, forró. Música para mexer o esqueleto; para se ouvir e gostar ou não gostar. Pautas (colcheia, semi-colcheia, mínima, semínima, escalas melódicas, harmônicas... credo!) e instrumentos não lhe diziam respeito e ele sabia que, se algum dia fosse chamado pra fazer parte da banda do colégio (ele sabia que isso jamais ia acontecer) seria taxativo em responder – não quero! Além das disciplinas, havia a participação obrigatória no grêmio literário: ele já fora avisado que precisaria fazer parte do grêmio literário pra aprender a escrever, desenvolver a escrita, a falar em público, senão, como ele ia se arrumar quando de tornasse padre?! E teria de escrever seus próprios discursos. E ainda teria de entrar no clube de inglês, que se reunia na hora do recreio noturno! Afinal, ele não podia se esquecer, ele era um aluno do Caraça e uma das razões da fama da casa era a facilidade com que seus ex-alunos lidavam com as palavras! “Apenas de ver um texto, já se nota que foi escrito por um aluno ou ex-aluno do Caraça! – alguns padres diziam, orgulhosos.”
Uma das restrições mais esdrúxulas do Caraça, até o princípio do século vinte, era a proibição da troca mesmo de olhares entre membros de salões diferentes. Os padres, os regentes, pensavam que havia a possibilidade de os alunos começarem a 'namorar'. Por isso, um fato estranho aconteceu ao novato: “Não entendi: eu era um 'pequeno', significando que era um aluno das séries básicas e estudava as matérias do princípio do curso, e que os 'grandes', os alunos do curso clássico, que estavam em vias de se mandar para o seminário maior (Petrópolis ou Mariana), tinham pouco a ver comigo, a não ser os cumprimentos de praxe e algumas brincadeiras, o que não eram muitos deles que o faziam (ademais, os 'grandes' eram em pequeno número). Estavam quase sempre juntos; podiam inclusive freqüentar a biblioteca, que era o xodó dos padres, envolvidos pela Apologética, pela Oratória, e pelas disciplinas de línguas. Como estavam indo embora, era necessário que estivessem afiados porque, como era buzinado em nossos ouvidos diuturnamente, onde fossemos, seja como padres ou leigos, estaríamos levando o nome do Caraça e, éramos responsáveis por demonstrar a excelência do ensino que tínhamos recebido e a retidão de nosso comportamento, que fizeram a glória e a grandeza da ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, através dos tempos. E eles, 'os grandes', por terem ido tão longe, tinham uma responsabilidade ainda maior (como o Irmão Nylo afirmara a respeito dos ex-alunos de Barão de Cocais, muitos que terminavam o curso clássico, ao invés de irem para o seminário maior, davam no pé: iam pra casa, pra suas cidades, ou pra outras cidades, ser engenheiros, médicos, professores, ou exercer outras profissões respeitáveis). Respeitávamos os grandes em seu encapsulamento e, se não nos dirigissem a palavra, raramente eram perturbados.
Por isso, estranhei a noite em que um deles veio em minha direção, no recreio.
“Vamos ali para o meio do pátio, rapazinho; vamos nos conhecer melhor.”
As notícias trazidas pelas cartas de Turbino estavam intrigando Cássio. Até então ele achava que as pessoas 'mais humildes' não necessitavam aprender aquelas frescuras de gente boa, de mais alto nível: as regras de boas maneiras. Os amigos dele, por exemplo: quando davam para rir, era rir mesmo, desbragadamente, sem miséria, estivessem onde estivessem (Cássio não era dado a estes arroubos; ria, mas, com moderação). E falavam em voz alta e não se importavam se alguém estava se sentindo importunado com seus rompantes. E, ao encontrar conhecidos, davam-lhes tapas nas costas e faziam chacotas, muitas vezes ofensivas e maldosas. E comiam de boca aberta, usando colheres!, e chupavam os cacos de dentes (como um emblema – mais um! - dos colegas, inclusive seu, todos eles exibiam apenas cacos de dentes na boca e alguns deles não exibiam dente algum!) E, ao finalizar o almoço, punham a marmita em algum lugar e se viravam de bruços e tiravam um cochilo. Nada de escovar ao menos os pedaços de dentes, ao menos para despistar! E o banho?!
Naquela clara manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se lambuzava de sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica ou sentados na velha escadaria ainda do tempo do Irmão Lourenço, outros apenas aglomerados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin, ensimesmado, decidiu dar um passeio e saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, observou o que restava da ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão.
“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Mas eles estavam se sentindo bem com a felicidade do amigo, e Cássio ia tomando umas bebidas e se sentindo cada vez melhor. E já estava pensando em ir embora, ligeiramente embriagado, quando Ivonete, sua filha única, chegou o nariz na porta e lhe fez um sinal: ela precisava falar com ele. Parecia ser assunto importante. Cássio saiu do boteco e Ivonete lhe disse que era preciso que ele fosse em casa. Que ele fosse conversar com Turbino, porque ele chegara ainda a pouco do Caraça.
“Uai! Chegô do Caraça?! Mais ele ainda num tá nas férias dele ainda!”
E foi pra casa.
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados).
E, vendo Turbino nas ruas, e sabedoras de que sua aventura no Caraça havia chegado a um fim prematuro, e sabendo do esboroamento dos sonhos de Cássio, as pessoas, condoídas (algumas nem tanto), passaram a chamar o carroceiro com mais freqüência para fazer carretos, de modo a aliviar sua frustração. Era a esmola, que ele tanto desejava evitar.
Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser sueto após o almoço, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, seria permitido, mas tal fato era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse, claro!
A melhor coisa que lhe pôde acontecer, a ele e à sua família, foi sua vinda para o Caraça. “Foi o Eriberto que o convenceu a ser padre. Eriberto – um preto de alma branca, 'seu' padre! Gente muito boa!” O estudo do Caraça era outra coisa, a disciplina também, e o seminário tinha tradição de austeridade e era famoso por formar grandes homens. Todos sabiam que sem estudo, bom estudo, nada se arruma, as coisas ficam muito mais difíceis, senão impossíveis.
“O Caraça é mais de meio caminho andado, 'seu' padre! Muito bão mesmo! O negócio de Turbino é ficá no Caraça mesmo!”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos mais antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello Peixoto e Castro, de Portugal, seu primeiro superior, (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo exposto, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
“Mais o qui meu filho fez de tão grave pra ser dispensado tão cedo e chegar em Barão de Cocais só com a roupa do corpo... e muito antes das férias começá?”
“Mas ele não disse para o senhor?”
“Não!”
“Seu filho praticou um ato libidinoso, 'seu' Cássio!”
Sem compreender, Cássio fitou os padres por uns instantes. Perguntou:
“Li... o quê?”
O padre disciplinário explicou:
“Libidinoso. Um ato indecente!”
“Como indecente?”
“Na última quarta-feira, dia que é folga de estudos após o almoço, sueto, como os alunos comumente dizem, ele foi brincar na água com um colega bem mais novo, no Banho do Imperador, e passou a mão na bunda e nas coxas do menino... e queria ir mais além! Queria fazer mais coisas!”
Cássio, ligeiramente desconcertado, indagou:
“É mesmo?”
“É!”
“Uai!”
“E então, 'seu' Cássio?”
“Bão...”
E Cássio, como se fazendo um enorme esforço para encontrar alguma justificativa para o ato libidinoso do filho, calou-se e olhou nos morros em volta: pedras; liquens e mato; florestas; flores, árvores, palmeiras...
“Bão o quê?”
O carroceiro, perturbado pelo fato de seu filho haver praticado uma ação tão negativa, mirou nos rostos dos padres e do Irmão, e, por fim, encolhendo os ombros, disse:
“Bão, intão, se ele fez isso mesmo é porque ele aprendeu com oceis!”
Os homens se admiraram:
“Aprendeu conosco?! Não entendemos! Como assim, meu senhor?”
E o carroceiro foi desfiando impropérios, afirmando que “todo mundo fala que os padre dão nitro pros seminarista pro pau deles num subi e pra um num ficá com vontade de cumê o rabo do outro e é verdade mesmo purque o sujeito qui chupa o pau dos moço quando a muié deli viaja num tem tesão e um dos moço qui vai lá falou comigo qui o sujeito fica mamano e o piru dele nem tchum: fica murcho, de cabeça pra baixo o tempo todo! E o povo tamém fala que os padre senta os minino no colo pra dá aula de piano pra eles e fica passano as mão na bunda e nas coxa deles e ainda fica ameaçano os coitado com o fogo do inferno!”
Os padres, leitores de Karl Marx, contendores do comunismo, e sabedores das nefastas conseqüências da não satisfação do 'furor do interesse pessoal', não retrucaram às ofensas do mulato, e este continuou:
Sem conseguir se conter, o Irmão Nylo apontou o pau de pegar cobras para o carroceiro e gritou:
“PRETO!”
Ao que Cássio, deixando-se levar pelas brincadeiras sem graça do filho, respondeu, aos gritos:
“NAMORADO DO GEREBA!”
E o Irmão Nylo empregou, outra vez, o seu francês:
“VOUS ÊTES UN CHEVAL!”
E Cássio, ainda mais irritado com aquelas conversas de poesia, as mangas curtas da camisa dobradas exibindo os grossos músculos do antebraço, as veias salientes, os lábios enormes ainda tremendo de ira, parou, virou-se, e deu uma última olhada furiosa para os rostos dos padres, que o observavam e, ao se virar para retomar a descida, tropeçou nas próprias pernas, e se estatelou de bunda nas gastas pedras da ladeira.
“Veja, - disse o padre superior apontando para o chão próximo a ele (como se não tivesse levado a sério as diatribes do carroceiro, desconsiderando suas palavras extremamente ofensivas, e deixando-se levar pelo mais elevado mandamento do Salvador: perdoar sempre; perdoar setenta vezes sete!) – você caiu sentado bem ao lado de onde Sua Alteza lmperial, D. Pedro II, desabou no século dezenove. Esta coroa que você vê aí gravada é relacionada com este fato. Se você não fosse tão agressivo, tão petulante, tão desbocado, nossa congregação poderia gravar nestas pedras uma homenagem ao carroceiro que conseguiu matricular seu filho no Caraça e, do mesmo modo que o imperador, você passaria a fazer parte indelével da história da nossa instituição!”
“O filho, se não for padeiro, vendedor de pão, exercerá um profissão baixa: será um barbeiro, ou um sapateiro, ou um operário da construção civil... e de má qualidade. E, se porventura não vier a ser nada disso, certamente terminará seus dias encarcerado!”
“Provavelmente... se Deus não entrar no meio.”
“Mas, talvez (quem sabe?), há pessoas até hoje procurando pela grana do Barão de Cocais e pode ser que ele seja um dos seus herdeiros; caso um dia a fortuna seja de fato encontrada, parte dela ainda chegue à suas mãos e sua família fique em uma boa situação e Padirin chegue mesmo a estudar em um bom colégio!”
“É verdade, meu padre; quem sabe?”
E os padres dão outra gargalhada.
Vendo que Cássio desaparecia na curva lá em baixo, perto da ponte, os padres, mãos enfiadas nos fundos bolsos das batinas, voltaram-se e, cabeças baixas, caminharam, lenta e compassadamente, em direção aos seus aposentos. O irmão Nylo, irado, ainda vermelho, de pé no adro frontal à igreja gótica, arrependido por não haver, por sua conta e risco, dado “uma correção” no atrevido carroceiro, alisava nervosamente o pau de pegar cobras e tentava compreender porque os padres haviam permitido que o preto os destratasse daquele modo. Depois, por sua vez, pôs-se a andar; ia curar sua raiva no caramanchão do outeiro do Calvário.
“Pega fogo! Isso mesmo! É tudo material mais do que ressecado, compadre! Afinal de contas, são duzentos anos! Duzentos! E alguns dos livros da biblioteca têm mais de quinhentos anos. São livros que vieram da Europa, trazidos pelos primeiros padres da Congregação da Missão, que vieram do estrangeiro, da França, pra lecionar no Caraça e os doaram ao seminário!”
Desencostando-se do carro, Cássio deu um sorriso malicioso e começou a dizer:
“Ora, cumpadre, se pega fogo à-toa, eu...”
E parou.
Leandro, intrigado, indagou:
“Você não tá pensando em fazer isso, está, compadre?”
Cássio olhou demoradamente para a construção ao longe, pensativo, e respondeu:
“Se pega fogo à-toa, eu acho que nós vai vortá aqui mais uma vez ainda, compadre!”
..... ..... ..... ..... .....
Vinte e oito de maio de 1968. Quase três horas da madrugada. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço e, lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o santuário do Caraça, quase nada se ouve. Como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé. Há sempre muita coisa para se fazer e o semestre letivo está ainda em sua metade. Há um grande caminho a ser percorrido. Talvez já haja, na casa das Sampaias, algum movimento, porque todas as habitantes da casa ao pé da íngreme subida que dá acesso ao portão frontal do colégio se sentem na obrigação, como elas afirmam, de servir a Deus diuturnamente, porque “a mil chegarás e de dois mil não passarás!”, e “grande é o Seu poder e infinita Sua misericórdia”, e elas querem fazer por merecer um lugar na “Jerusalém Celeste”; não há, porém, movimento externo na casa. Grilos cricrilam num tom baixo, e mesmo as cigarras apenas se arriscam a ciciar, certamente inspiradas pelo ambiente poético. Tostada pelo calor do dia e da noite, a vegetação exala forte e variado perfume, que provoca leve comichão no nariz. Nuvens pequenas navegam no céu de um azul profundo, onde estrelas quase difusas tentam cintilar, lutando contra a forte luz do luar. Sobre os morros do Inficionado e da Carapuça, o excessivo brilho lunar provoca fortes e marchetadas manchas escuras: são as reentrâncias das rochas que a luz não pode alcançar.
O que carroceiro viu ao se aproximar da janela o deixou perplexo: não era para ser verdade! um fogareiro elétrico sobre uma mesa – bem junto da janela - e ligado!; ao lado de dezenas de livros raríssimos, antigos, alguns seculares; material altamente inflamável – e de madrugada! Impossível!
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, tornou-se, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também, histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o Pico da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O colégio ficou dezessete anos quase abandonado, mas não esquecido. O seminário fechou as portas, mas, ao contrário do que sugere o sub-título do livro, o Caraça não morreu; longe disso ('os rochedos não morrem!')! Não havia como; apenas hibernou: em março de 1975, o governador do estado e outras autoridades subiram a serra. Foram inaugurar a estrada asfaltada, patrocinada pelo estado, aspiração dos padres desde a época do incêndio, que substituiria a antiga, de terra. O Caraça não mais funcionaria como colégio; apenas como centro de irradiação espiritual, local de retiros e meditações (que era o desejo primeiro do fundador, Irmão Lourenço de Nossa Senhora), além de local de peregrinação, recolhimento, e de altos estudos culturais, vocação esta que, desde há muito, estava imbricada na vida do estado de Minas Gerais e do país.
E Cássio? Extremamente contrariado (permanecera junto ao seu 'canguiço', mas havia enviuvado), continuou a ocupar o mesmo canto do balcão (agora sem o tambor de querosene) para tomar uns tragos e ruminar suas tristezas e seus ressentimentos, após fazer seus carretos eventuais, onde, aborrecido, veio a saber da recuperação do Caraça, não mais como colégio, mas, como casa de repouso, de meditação, de recolhimento, de oração. Ficou sabendo que o governo do estado asfaltara a estrada, o que facilitava a subida ao santuário, e que inúmeras caravanas subiam a serra – gentes até do exterior! -, pra admirar as belezas da natureza, caminhar nas trilhas, nadar nas cachoeiras, e rezar na ermida, ou mesmo realizar casamentos e festividades na igreja gótica.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora daquelas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, tornou-se membro de um grupo de oração, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Quanto a Turbino, o Padirin de Barão, atingiu a maioridade em Barão de Cocais, mas não foi longe nos estudos. Tentou estudar, mas, não conseguiu (desisto; não tenho cabeça pra essas coisas!), e ainda teve o desgosto de saber que Tânia, a filha da Benza-a-Deus, se amasiara com o mulato DaMata. Não foi carroceiro como o pai e também não voltou a trabalhar na padaria. Ficou flanando pela cidade durante alguns poucos anos, depois, foi pra São Paulo e nunca mais retornou à sua terra natal (à época da morte dos pais, havia muito que partira). Ao contrário do que o padre superior presumira, não foi encarcerado; é um cidadão de bem. Embora não tivesse sido bom aluno no pouquíssimo tempo que ficou no Caraça, o germe dos ensinamentos dos padres estava incutido nele; a semente germinou e ele manteve as regras básicas de comportamento do seminário: pontualidade, obediência, disciplina.
E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar sobre o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo; das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' ('Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!'), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
Na madrugada de 28 de maio de 1968, um fogareiro esquecido aceso por um aluno que estivera trabalhando na encadernação no princípio da noite provocou um devastador incêndio que pôs fim ao Caraça como instituição de ensino. Dois terços de sua biblioteca, pejada de livros raríssimos, se perderam no incêndio. A parte interna do prédio onde funcionavam - além da biblioteca - os salões de estudo, o laboratório de química e física, a enfermaria, as salas de aulas, e os dormitórios, ruiu. Dentro de três anos, o Caraça faria 150 anos de funcionamento como colégio/seminário. Os padres lazaristas já estavam preparando as festividades. Ao invés disso, no dia 28 de maio de 1968, os alunos foram mandados de volta para suas casas. A era Colégio do Caraça chegara ao fim.
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
romance
Em fins do século dezessete e princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas nas então Minas, que viriam, mais tarde, a serem Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram, aos milhares, para o inóspito desconhecido. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros e faiscadores continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas e margens dos rios mineiros literalmente brilhavam no escuro.
Mas nem só de ouro e diamantes era rico o solo de Minas Gerais. Com a decadência de quase todas as lavras (pelo menos as de fácil extração), outro tipo de metal, embora não tão valioso em menores quantidades, veio ocupar o lugar dos metais nobres: o minério de ferro. E, neste setor econômico, Minas Gerais se revelou privilegiado. Minérios de variáveis teores ferríferos foram encontrados em vários locais do estado, e seu achado coincidiu com a incipiente, mas crescente, industrialização do Brasil e também do mundo, e o país se tornou um grande exportador de minério de ferro e, posteriormente, de seus produtos industrializados, além de fornecer matéria beneficiada para as indústrias do país. Mas cedo a instalação de altos-fornos trouxe um tipo de degradação ao meio ambiente – a destruição das matas nativas -, embora em tal época esta preocupação não fizesse parte na discussão dos temas relevantes. Devido à necessidade de carvão para as siderúrgicas, as matas próximas a elas cedo foram dizimadas, e se tornou necessário buscar carvão cada vez mais longe.
Quase ao lado de Belo Horizonte (a cem quilômetros de distância), cercada por extensas matas de eucaliptos e assentada entre montanhas ferríferas (cuja poeira rubra fez com que seus habitantes ganhassem a carinhosa alcunha de pés-de-pomba), fica a cidade de Barão de Cocais. Pequena, mas, dinâmica e de intensa vida sócio-cultural, Barão de Cocais, cidade histórica, possui, possivelmente, as jazidas de minério de ferro mais próximas de sua siderúrgica (embora minério de baixo teor), estando esta, na verdade, assentada sobre antigas jazidas desativadas. Se as terras mineiras têm morros, Barão de Cocais os tem em excesso, o que faz com que seus bairros estejam, na maioria, espalhados entre e sobre montanhas e dêem à cidade uma aparência de grandeza geográfica que ela, na realidade, não possui. Por fazer parte do quadrilátero ferrífero, a cidade é fornecedora e via de transporte de minério de ferro bruto e beneficiado (aço e gusa) para o exterior, cujas cargas são levadas por composições de centenas de vagões puxadas por enormes e potentes conjuntos de locomotivas. Não sem alguma razão, seus habitantes, assim como provavelmente os das outras cidades do quadrilátero, resmungam contra o fato de seus recursos naturais estarem sendo subtraídos sem que eles vejam a cor do dinheiro ou sem que nada seja colocado no lugar das enormes crateras produzidas pelas escavações (quando muito, as siderúrgicas 'passam mel na boca dos habitantes', camuflando a situação com projetos ambientais nas áreas devastadas).
Cássio, carroceiro, mulato-escuro, quase negro, troncudo, rosto com acentuadas marcas como que de cansaço, baixo, cabelos estranhamente lisos, levemente anelados penteados para trás, um alto topete que costuma cair sobre a testa, lábios enormes, mangas da camisa dobradas de modo a exibir os músculos riscados por veias salientes, peito da camisa aberto, toma uma bebida destilada e, como tem se tornado recorrente, olha para a parte mais antiga da cidade, a rua estreita, logo ali na frente, a Rua das Três Bicas, que, em tempos passados, levava às antigas carvoarias, e pensa: seus antepassados, alguns dos quais ele nem havia conhecido, tinham passado por aquela rua estreita, que conduzia ao que restava de uma longínqua floresta nativa, conduzindo tropas de burros, no transporte de carvão. Seu pai mesmo – Zé do Burro –fora um destes tropeiros, e ele o tinha acompanhado no trabalho algumas vezes, antes que a profissão começasse a definhar (assim como seus parentes) até desaparecer por completo (pelo menos na região carvoeira). Eram recordações que ele não apreciava, mas não havia como evitar: o pulo da cama de madrugada (os galos nem ao menos haviam cantado ainda!), um café tomado às pressas (tempo era dinheiro: quanto mais carvão os tropeiros entregassem na siderúrgica, mais grana eles ganhavam, embora todos vivessem na mesma penúria), e a cavalgada até à carvoaria. Ali, todos tinham de colocar a mão na massa: tirar o carvão dos fornos, carregar, encher os balaios, amarrar sobre os lombos dos animais de modo que não caíssem, e vir tocando a tropa, os garotos ao lado dos animais, vigiando para que nenhum deles debandasse, um deles guiando a madrinha, que era a “responsável” pela direção do grupo de animais. Ao fim da jornada, descarregavam às pressas e regressavam para a mata: iam em busca de mais carvão. Pelo menos na volta, havia um alívio: todos podiam voltar montados nos animais que aceitavam montaria.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez por outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
Este o dilema de Turbino: não era exatamente um beco sem saída (ele tinha a vida pela frente, podia se safar!); era uma encruzilhada - e ele tinha de tomar uma decisão, procurar um rumo. Até que, numa tarde, o destino, imprevisível, na pessoa de um moço extremamente educado e bem intencionado, 'batesse à sua porta'.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como um vistoso condor de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde lhe veio o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família.
Turbino riu.
“Você está mesmo tramando alguma coisa?”
“Eu não! Tô tramando nada!”
“Quantos anos você tem?”
“Quatorze.”
“O que você pretende fazer da vida, moço?”
“Eu? Não sei ainda.”
“Você devia ir para o Caraça.”
“Caraça?! E o que eu vou fazer no meio daquelas montanhas?”
E Cássio, espicaçado pela lembrança de seus antepassados, aos molambos, correndo ao lado das tropas pelas ruas da cidade, em direção aos depósitos da siderúrgica, e incapaz de se desgarrar da lembrança das casinhas miseráveis no fim da rua, moradas de seus antepassados (“incrivelmente, ainda piores do que a minha!”), da ida de suas gerações anteriores em busca da água da bica, “a qualquer hora do dia ou da noite, no frio ou no sol, ou na chuva!”, tremendo de excitação, tomou o filho pelo braço, levou-o à rua estreita por onde os tropeiros haviam passado dirigindo os animais em direção às distantes carvoarias, e lhe mostrou as residências antigas.
“O seminário é o lugar dele, 'seu' padre! Meu filho tá desperdiçado nesta cidade. Nunca vi gostar de religião assim! Semana que vem mesmo ele disse que ia entrar na Congregação Mariana!”
A mãe perguntou: como vamos pagar pelo colégio, padre? Nós não temos condições!
O padre respondeu:
“A providência divina supre as necessidades do seminário, minha senhora. Não se preocupe!”
“Ah, que ótimo!”
À saída, o padre afirmou, sorrindo:
“Vai dar tudo certo! Eu tive uma impressão muito boa!”
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados.
Rodaram mais uns poucos quilômetros e o caminhão deixou Turbino e os outros alunos à porta da construção, a jóia do Irmão Lourenço de Nossa Senhora - a ermida do Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens ou, como os padres não se cansavam de dizer – o Imperial Colégio do Caraça. Mais tarde, ele se lembraria:
“Logo na chegada, antes mesmo de descermos da boléia do caminhão, alguém me apontou um prediozinho de dois andares, logo à entrada do prédio principal, e afirmou: chama-se Sobrado Afonso Pena. É uma homenagem a um dos grandes homens de Minas, da política mineira, que estudaram aqui. É a morada das irmãs da caridade que auxiliam no seminário. E aqui está – o sujeito apontou para o prédio maior ao lado -, em toda a sua grandeza, a construção de pedras enormes, quadradas, feita a dezenas e dezenas de anos atrás: a ermida do Caraça!”
Turbino simpatizou com o padre superior, com sua fisionomia tranqüila, seu rosto chupado, e com seu jeito manso de conversar. E o padre, talvez temeroso de que os novatos se amedrontassem excessivamente com o grau de exigência, explicou, pressuroso, que haveria vários suetos durante o período letivo, horas preciosas de descanso para que os alunos esfriassem as cabeças; ('ninguém ia ficar doido por estudar em excesso!'). Sabendo que estava falando grego, pois, ninguém sabia o que era sueto, ele esclareceu: sueto e folga das obrigações eram a mesma coisa. Aos domingos, às quartas-feiras após o almoço e também nas tardes de sábados, o tempo ficava livre para os apostólicos fazerem o que quisessem – desde que tudo estivesse dentro das normas, claro!
Turbino, muito tempo depois, ainda se recordaria: “Eu fiquei até com vontade de rir! Após o almoço, outro moço juntou os novatos (todos ainda crianças, menos ele, que já estava caminhando para os quinze anos!), e nos arrastou pelos corredores, apontando os quadros nas paredes, e dizendo: este é o Irmão Lourenço, o fundador do santuário, cuja vida e vinda para o Brasil são cercadas de mistérios. Aqui está o retrato de D. João VI, grande benfeitor da Congregação dos Padres Lazaristas (seus membros são conhecidos como padres e irmãos vicentinos ou lazaristas porque a primeira casa da Congregação, em Paris, se chamava «Casa de São Lázaro), a quem doou a ermida e as matas do Caraça. D. João VI deve ser proclamado o primeiro e maior benfeitor, o mais ilustre e benemérito paraninfo do Caraça! E este é D. Pedro I, que visitou nosso santuário em 1831, e, mais tarde, cinqüenta anos depois, veio seu filho, D. Pedro II, que está neste outro quadro. Observem os traços suaves e precisos do pintor. Aprendam a enxergar as sutilezas de uma pintura! Isto faz parte de sua formação.” Turbino, mãos às costas, curioso, ia acompanhando.
“Eu... apreciando quadros!” Era isso: jamais Turbino se imaginaria olhando quadros em paredes! Mas, ali estava ele. E estava achando os troços interessantes e se sentindo importante!
Ao acabarem as andanças, Turbino deduziu que ele havia tomado seu primeiro banho de cultura e de arte – e que ele, imbuído do espírito caracense, teria, dali para a frente, de percorrer um caminho de santidade!
“Lembrem-se – ao término, o guia enfatizou– pisar no Caraça é pisar na história!”
Depois, a surpresa maior:
“Pra quem tava acostumado a ir às aulas quando queria, ou a ir pra fazer bagunça e brincar, ou pra quem não tinha hora pra estudar, foi um choque e tanto! Era estudo e aula o tempo todo... com hora marcada! E reza e orações! Muitas! Começava cedo! De madrugada, o padre chutava as portas dos dois dormitórios, acordando a turma! E, no decorrer do dia, ficava por conta do sino. O sino, pendurado numa trave no pátio do recreio, dava o sinal. Era tudo recheado com o mais completo silêncio!”
Você tá entrando no Caraça pra ser padre mesmo?”
“Eu tô.”
“Que beleza, moço! Meu nome é Dirceu e o seu?”
(Mais tarde, o novato veio a saber que o moço, devido aos formato de seu rosto, tinha o apelido de Goiabinha).
“Turbino.”
“Você tem os braços musculosos, menino! Você trabalhava em alguma coisa?”
Turbino, que apreciava ser considerado trabalhador, respondeu, orgulhoso:
“Trabalhava sim; de padeiro em Barão de Cocais.”
“Que legal! E você fazia pães?”
“Não, eu apenas ia à padaria, enchia um balaio de pão, e saía vendendo.”
“Moço trabalhador! E você vendia no centro da cidade mesmo?”
“Nunca no centro. O patrão me mandava vender nos bairros mais distantes, onde os padeiros mais velhos não gostavam de ir!”
“Ahhhh, mas covardia! Um rapazinho tão novo! – fez o Dirceu.
E, voltando-se para a turma, exclamou:
“Vejam, gente, tem mais um padeiro no Caraça! Agora chegou o Padirin de Barão!” (mais um porque o seminário tinha um padeiro, irmão leigo, que era morador da ermida).
Os outros alunos riram e o padre chegou. Ao fim da primeira aula, o seminário inteiro sabia que o novato tinha sido padeiro – e que se chamava Turbino e seu apelido, de agora em diante, seria Padirin de Barão.
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
E Padirin foi descobrindo mais coisas:
“Quando eu tava lá na cidade, muitas coisas existiam e eu nem sabia; nem notava. O luar, por exemplo. A lua, pra mim, era um naco de queijo pendurado no céu, que ia crescendo e ficava inteiro, redondinho, uma vez por mês e, depois, ia diminuindo e sumia; ela lá em cima, no céu, e eu aqui em baixo, na terra; nada, além disso (não era de todo verdade: a lua era, também, o farol que iluminava o caminho quando ele, de madrugada, às vezes acompanhado de colegas, às vezes sozinho, ia roubar frutas em sítios alheios, passando no meio do mato). Aqui, no Caraça, pertinho do céu, ela como que ocupa um espaço enorme, e parece estar muito próxima da gente. E delinea perfeitamente as curvas e os contornos dos montes. E se pode ver as cruzes e figuras do Calvário, o cercado do cemitério, e as árvores lá longe, no Campo da Urbis, no caminho da cara do gigante. Eu aprendi a enxergar a lua, a beleza da lua contra o céu azulado. Muitos alunos, nos horários do recreio noturno, ficam olhando pra lua, de nariz pra cima – em silêncio. Depois, quando a lua tá a pino, eles formam uma rodinha e alguém sempre puxa uma música – Peixe Vivo, Luar do Sertão ou outra, muito famosa: “Para mim/a chuva no telhado/é cantiga de ninado, mas o pobre meu irmão...” – e as vozes, algumas não tão boas, enchem o pátio.” E, nas noites sem lua, as estrelas parecem mais numerosas; a escuridão, com o ar rarefeito, sem poluição, faz com que elas fiquem mais visíveis, mais distintas – e tremeluzentes. Como vagalumes prateados. Muitos alunos ficam olhando pro céu, embevecidos. Ficam de nariz pra cima, em silêncio. Perdem até a fala. Eu aprendi a enxergar as estrelas também – e até a escuridão mais fechada ficou interessante pra mim! Fico de nariz pra cima, em silêncio – até sem fala.
(Outra lembrança que marcou Padirin foi a descida da neblina, de madrugada, sobre o Campo da Urbis, o descampado enorme, coberto de vegetação baixa e retorcida, que levava aos lados do morro do Inficcionado. “Eu tava sem sono e tive a idéia de me levantar e chegar à janela do dormitório. Alta madrugada, todo mundo dormindo [silêncio mais absoluto!], e a neblina cobria o campo. A névoa me lembrou uma multidão de fantasmas, alguns mais densos do que os outros, disformes, frios, brincando entre os arbustos. E alguns fantasmas subiam rastejando, vagarosos, as encostas, e outros corriam, céleres, e se escondiam entre as pedras negras, no enclave entre os picos da Bocaina e do Inficcionado, bem na Cara do Gigante.”)
DaMata (Padirin se lembrava), moreno quase preto, por volta dos vinte e cinco anos de idade, baixo, forte, lábios muito finos, cabelo pixaim rente ao couro cabeludo (sementinha de mamão), cabeça com um feio cocuruto traseiro apontando para o alto, carregava caixotes de mercadorias de um lado pro outro no armazém do Moreira durante todo o dia e, à tarde, subia, esfalfado, a estrada que levava ao morro da Lagoa, a caminho de casa. Para espairecer – como afirmava – sentava-se ao lado do campo e via os moleques correndo atrás da bola. Ficava lá sentado e contava casos, os assuntos variando em torno do mesmo tema: mulheres. E alguns garotos, já atazanados pelos hormônios ebulientes da pré-adolescência, sentavam-se ao seu lado e ouviam e riam e iam aprendendo algumas lições. Alguns colegas da parte baixa da cidade, passeando, também costumavam acompanhar DaMata em sua subida pra casa e riam com suas histórias. Como quando ele reclamava (o que era recorrente) pelo fato de o patrão dar chutes na bunda da filha mais velha, de dezenove anos. “Ah, meu Deus, a popa da Giselda! Aquilo não é bunda: é uma obra de arte! Cheia... e redondinha! E o filho da puta acha a filha insolente, respondona, e mete o pé direito sem dó! Se ele não suporta a moça, porque leva ela pra trabalhar no comércio, onde se vive trombando com gente chata?
Mas, antes de o ato se consumar, ele tinha vindo para o Caraça. Agora, estava ali - não mais Turbino, mas, Padirin -, sentado ao lado de outro moreno, este de tez não tão escura quanto DaMata, pele bem tratada, sem barba, palavreado articulado, arrumadinho, de batina, jovem mas quase sem cabelos, dentes grandes e muito brancos, que o olhava muito de perto, bem dentro dos olhos, por detrás de grossas lentes, a mão direita apoiada no espaldar da cadeira, como se tentando lhe adivinhar os pensamentos, ler a sua mente (uma das primeiras coisas que Turbino observou, ao entrar no seminário, foi que parecia que os padres estavam sempre tentando adivinhar os pensamentos dos alunos): o conselheiro espiritual do Caraça. O sino do pátio havia batido, avisando do fim do recreio, e ele fora chamado ao quarto do conselheiro espiritual. Qual colega o havia chamado? Fora o Nelito? O Rosivaldo? Padirin ficara tão apreensivo que nem se lembrava! Pra que o chamava? Ele conversa com todos os novatos que chegam ao seminário. O que ele fala? Um monte de coisas! O que ele quer saber? Você vai ter a resposta para suas perguntas já, já. Padirin, receoso, entrou no gabinete do moço, e o moreno, após cumprimentá-lo apertando sua mão e lhe pedir que ocupasse uma cadeira ao seu lado, declinou seu nome e, como se não soubesse, perguntou pelo do novato: Turbino; (“Por que seus colegas o chamam de Padirin? Ah... então, ele já sabia! [vendia pães em Barão de Cocais]”) e lhe disse (Turbino notou que o padre tentava deixá-lo à vontade) ser o diretor espiritual do seminário.
E Padirin aprendeu com o conselheiro espiritual do Caraça que ele devia evitar, a todo custo, a masturbação (isso ele sabia o que era, não sabia? Padirin ia dizer que não sabia, mas foi honesto: ele sabia, pois que ele não batia uma puneta de vez em quando?! ), que mina as forças dos jovens, provoca cansaço e sonolência, e, mais importante, é um pecado gravíssimo contra o Criador: “Toda vez que você ejacula em vão, meu rapaz, você joga fora uma vida em potencial! E você pode estar desperdiçando um ser humano de alto cabedal!” Cabedal?! Padirin, assustado com o palavreado elaborado do conselheiro espiritual da Imperial Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, deduziu que teria de arrumar um dicionário e lê-lo, se pretendesse trocar de idéias com os padres do santuário!
Antes de deixar o gabinete do moço, este perguntou a Turbino a respeito de sua família, a profissão do pai (carroceiro?!), da mãe (ela trabalha fora? Não; é do lar – dona de casa), se tinha irmãos; tinha sim; apenas uma irmã, de vinte anos. E o padre, que estava tendo contato com Turbino pela primeira vez, lembrou-o, mais uma vez, dos votos de castidade, da luta contra o desejo sexual (quando você estiver folheando uma revista, meu filho, se, por um acaso, aparecer uma foto de mulher ou de mulheres em poses provocantes, indecentes, não olhe! Passe rápido as páginas ou se desfaça da revista! E, ao caminhar pelas ruas no mundo 'lá fora', ao passar por mulheres vestidas de roupas impróprias, saias curtas, blusas diminutas ou decotadas, abaixe a cabeça, vire o rosto para o outro lado: faça de conta que não vê!), e lhe ensinou algumas jaculatórias para serem ditas nos momentos de tormenta, e que ele lesse uma carta de São Paulo Apóstolo, na qual este afirmava que as tentações da carne são como que um espinho que o cristão tem de suportar, em sua busca da perfeição espiritual, da virtude. Em seguida, abriu uma gaveta, retirou um embrulho, uma caixa, de dentro, tirou umas balas de caramelo, e estendeu a Padirin:
“Tome; é para ajudar a adoçar seus primeiros dias no Caraça!”
Padirin riu, agradeceu, e deixou o gabinete. E foi chupando uma balinha e dizendo baixinho algumas jaculatórias que havia aprendido com o padre do Caraça, o diretor espiritual do santuário:
“Oh, Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”
“Nossa Senhora Mãe dos Homens, tende piedade de nós!”
“São José, rogai por nós!”
“Mas houve um ex-aluno que se emocionou, - não chorou, é verdade -, mas encheu o saco – e como!” A turma ficou muito irritada com o velhote e Padirin, em particular, tanto, que nunca mais se lembraria de seu nome. “Ex-aluno muito antigo, era professor de línguas, fizera muito pela educação, fundara colégios, sendo diretor de um - ficamos sabendo. Uma pessoa importante, uma das muitas que sempre apareciam para visitar o Caraça! Veio matar as saudades; demos azar, nós, os alunos, porque veio numa manhã de domingo, quando, após a missa, costumávamos nos preparar para os passeios ou jogos da tarde (os jogadores de futebol engraxavam suas chuteiras, os do pingue-pongue envernizavam suas raquetes, os das caminhadas preparavam suas vestimentas e calçados apropriados, etc.), e, neste domingo, antes mesmo do almoço, fomos avisados de que haveria uma palestra inesperada, um visitante ilustre desejava dizer algumas palavras, e tinha de ser naquela tarde – logo após o almoço -, porque, na manhã seguinte, ele tinha compromissos na capital e não poderia se demorar no santuário. De modo que haveria mudanças: nada de passeios ou jogos. Ficamos raivosos, depois, consideramos que talvez o visitante dissesse apenas algumas palavras rápidas e nossa tarde não ficasse completamente perdida. Não foi o que aconteceu:
Você sabe o que de fato você veio fazer aqui, Padirin? - o anjo de Turbino perguntou, com caras de poucos amigos. Sei; vim estudar e aprender o máximo possível. Então, dê um jeito! Suas notas não demonstram quase nenhuma atividade intelectual na sua rotina. Você nem joga bola, porque não tira notas melhores? E nem discute futebol! (Eram dois empecilhos que travavam o desenvolvimento de alguns alunos: futebol e discussões a respeito de futebol) Não sei se você sabe: os padres vigiam o comportamento dos alunos o tempo todo (não só os padres: alunos vigiavam alunos também! E os umbigueiros?!). E, dependendo de suas ações, eles lhe pedem pra ir embora. E, se você disser que não quer ir, que está gostando de ficar, eles exigem que o faça: eles o mandam embora. Colocam no carro e mandam entregar em casa. Você sabe disso.
Três semanas após a ida de Turbino, uma surpresa: num domingo, de manhã, Cássio subiu a serra. Foi em um ônibus de excursão e foi sem a esposa, que não se sentia confortável com igrejas ou religiões ou perto de padres. Foi conhecer o seminário e aproveitar para agradecer aos padres a aceitação do filho no colégio e, por sorte, dera de cara com o padre superior no adro da igreja. Cássio apresentou-se para ele, e o superior pediu que alguém chamasse o aluno, Turbino, e Cássio, embevecido, disse que ele não tinha palavras para agradecer a graça de seu único filho poder 'usufrutar' de tão gratificante oportunidade (meus amigos 'stão impressionados, “seu” padre. Um filho meu no Caraça! E, se ele for ordenado padre, então, vai ser a glória!)
Ouvindo o Irmão responder aquilo até com certa rispidez, o novato atentou para o fato de ele o estar sempre olhando com curiosidade nos horários de recreio e, mais de uma vez, o haver chamado de 'colegial', o que era um sinal de descaso, que denotava que o falante não acreditava na vocação sacerdotal do ouvinte. E o rapazinho deduziu: o Irmão Nylo não gostava dele e ele não atinava com a razão! E Padirin, que achava o Irmão um tanto bronco para ser responsável por alguma coisa (visto que o gorducho se intitulava 'mestre de cerimônias/guardião do santuário'), e também não o tinha em alto conceito, decidiu, mesmo assim, apelar pelos ensinamentos do seminário e tentar ser cortês com o Irmão e ganhar sua amizade.
O padre se sentava numa cadeira sobre um estrado elevado (o púlpito) e ensinava a matéria e pedia os “pontos”. E nunca deixava de dar deveres para “depois” – mas, “depois” o mais rápido possível. E muita redação. Redação?! Padirin era um dos poucos que não estavam dando conta dos “pontos”; era muita coisa, muita novidade, assuntos dos quais ele nunca tinha ouvido falar (quem diria que um dia eu ia aprender latim?! E pra que teria de aprender latim?!) E música?! Músicas, para ele, sempre tinham sido aquelas oriundas dos rádios; sanfona, viola, forró. Música para mexer o esqueleto; para se ouvir e gostar ou não gostar. Pautas (colcheia, semi-colcheia, mínima, semínima, escalas melódicas, harmônicas... credo!) e instrumentos não lhe diziam respeito e ele sabia que, se algum dia fosse chamado pra fazer parte da banda do colégio (ele sabia que isso jamais ia acontecer) seria taxativo em responder – não quero! Além das disciplinas, havia a participação obrigatória no grêmio literário: ele já fora avisado que precisaria fazer parte do grêmio literário pra aprender a escrever, desenvolver a escrita, a falar em público, senão, como ele ia se arrumar quando de tornasse padre?! E teria de escrever seus próprios discursos. E ainda teria de entrar no clube de inglês, que se reunia na hora do recreio noturno! Afinal, ele não podia se esquecer, ele era um aluno do Caraça e uma das razões da fama da casa era a facilidade com que seus ex-alunos lidavam com as palavras! “Apenas de ver um texto, já se nota que foi escrito por um aluno ou ex-aluno do Caraça! – alguns padres diziam, orgulhosos.”
Uma das restrições mais esdrúxulas do Caraça, até o princípio do século vinte, era a proibição da troca mesmo de olhares entre membros de salões diferentes. Os padres, os regentes, pensavam que havia a possibilidade de os alunos começarem a 'namorar'. Por isso, um fato estranho aconteceu ao novato: “Não entendi: eu era um 'pequeno', significando que era um aluno das séries básicas e estudava as matérias do princípio do curso, e que os 'grandes', os alunos do curso clássico, que estavam em vias de se mandar para o seminário maior (Petrópolis ou Mariana), tinham pouco a ver comigo, a não ser os cumprimentos de praxe e algumas brincadeiras, o que não eram muitos deles que o faziam (ademais, os 'grandes' eram em pequeno número). Estavam quase sempre juntos; podiam inclusive freqüentar a biblioteca, que era o xodó dos padres, envolvidos pela Apologética, pela Oratória, e pelas disciplinas de línguas. Como estavam indo embora, era necessário que estivessem afiados porque, como era buzinado em nossos ouvidos diuturnamente, onde fossemos, seja como padres ou leigos, estaríamos levando o nome do Caraça e, éramos responsáveis por demonstrar a excelência do ensino que tínhamos recebido e a retidão de nosso comportamento, que fizeram a glória e a grandeza da ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, através dos tempos. E eles, 'os grandes', por terem ido tão longe, tinham uma responsabilidade ainda maior (como o Irmão Nylo afirmara a respeito dos ex-alunos de Barão de Cocais, muitos que terminavam o curso clássico, ao invés de irem para o seminário maior, davam no pé: iam pra casa, pra suas cidades, ou pra outras cidades, ser engenheiros, médicos, professores, ou exercer outras profissões respeitáveis). Respeitávamos os grandes em seu encapsulamento e, se não nos dirigissem a palavra, raramente eram perturbados.
Por isso, estranhei a noite em que um deles veio em minha direção, no recreio.
“Vamos ali para o meio do pátio, rapazinho; vamos nos conhecer melhor.”
As notícias trazidas pelas cartas de Turbino estavam intrigando Cássio. Até então ele achava que as pessoas 'mais humildes' não necessitavam aprender aquelas frescuras de gente boa, de mais alto nível: as regras de boas maneiras. Os amigos dele, por exemplo: quando davam para rir, era rir mesmo, desbragadamente, sem miséria, estivessem onde estivessem (Cássio não era dado a estes arroubos; ria, mas, com moderação). E falavam em voz alta e não se importavam se alguém estava se sentindo importunado com seus rompantes. E, ao encontrar conhecidos, davam-lhes tapas nas costas e faziam chacotas, muitas vezes ofensivas e maldosas. E comiam de boca aberta, usando colheres!, e chupavam os cacos de dentes (como um emblema – mais um! - dos colegas, inclusive seu, todos eles exibiam apenas cacos de dentes na boca e alguns deles não exibiam dente algum!) E, ao finalizar o almoço, punham a marmita em algum lugar e se viravam de bruços e tiravam um cochilo. Nada de escovar ao menos os pedaços de dentes, ao menos para despistar! E o banho?!
Naquela clara manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se lambuzava de sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica ou sentados na velha escadaria ainda do tempo do Irmão Lourenço, outros apenas aglomerados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin, ensimesmado, decidiu dar um passeio e saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, observou o que restava da ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão.
“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Mas eles estavam se sentindo bem com a felicidade do amigo, e Cássio ia tomando umas bebidas e se sentindo cada vez melhor. E já estava pensando em ir embora, ligeiramente embriagado, quando Ivonete, sua filha única, chegou o nariz na porta e lhe fez um sinal: ela precisava falar com ele. Parecia ser assunto importante. Cássio saiu do boteco e Ivonete lhe disse que era preciso que ele fosse em casa. Que ele fosse conversar com Turbino, porque ele chegara ainda a pouco do Caraça.
“Uai! Chegô do Caraça?! Mais ele ainda num tá nas férias dele ainda!”
E foi pra casa.
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados).
E, vendo Turbino nas ruas, e sabedoras de que sua aventura no Caraça havia chegado a um fim prematuro, e sabendo do esboroamento dos sonhos de Cássio, as pessoas, condoídas (algumas nem tanto), passaram a chamar o carroceiro com mais freqüência para fazer carretos, de modo a aliviar sua frustração. Era a esmola, que ele tanto desejava evitar.
Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser sueto após o almoço, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, seria permitido, mas tal fato era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse, claro!
A melhor coisa que lhe pôde acontecer, a ele e à sua família, foi sua vinda para o Caraça. “Foi o Eriberto que o convenceu a ser padre. Eriberto – um preto de alma branca, 'seu' padre! Gente muito boa!” O estudo do Caraça era outra coisa, a disciplina também, e o seminário tinha tradição de austeridade e era famoso por formar grandes homens. Todos sabiam que sem estudo, bom estudo, nada se arruma, as coisas ficam muito mais difíceis, senão impossíveis.
“O Caraça é mais de meio caminho andado, 'seu' padre! Muito bão mesmo! O negócio de Turbino é ficá no Caraça mesmo!”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos mais antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello Peixoto e Castro, de Portugal, seu primeiro superior, (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo exposto, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
“Mais o qui meu filho fez de tão grave pra ser dispensado tão cedo e chegar em Barão de Cocais só com a roupa do corpo... e muito antes das férias começá?”
“Mas ele não disse para o senhor?”
“Não!”
“Seu filho praticou um ato libidinoso, 'seu' Cássio!”
Sem compreender, Cássio fitou os padres por uns instantes. Perguntou:
“Li... o quê?”
O padre disciplinário explicou:
“Libidinoso. Um ato indecente!”
“Como indecente?”
“Na última quarta-feira, dia que é folga de estudos após o almoço, sueto, como os alunos comumente dizem, ele foi brincar na água com um colega bem mais novo, no Banho do Imperador, e passou a mão na bunda e nas coxas do menino... e queria ir mais além! Queria fazer mais coisas!”
Cássio, ligeiramente desconcertado, indagou:
“É mesmo?”
“É!”
“Uai!”
“E então, 'seu' Cássio?”
“Bão...”
E Cássio, como se fazendo um enorme esforço para encontrar alguma justificativa para o ato libidinoso do filho, calou-se e olhou nos morros em volta: pedras; liquens e mato; florestas; flores, árvores, palmeiras...
“Bão o quê?”
O carroceiro, perturbado pelo fato de seu filho haver praticado uma ação tão negativa, mirou nos rostos dos padres e do Irmão, e, por fim, encolhendo os ombros, disse:
“Bão, intão, se ele fez isso mesmo é porque ele aprendeu com oceis!”
Os homens se admiraram:
“Aprendeu conosco?! Não entendemos! Como assim, meu senhor?”
E o carroceiro foi desfiando impropérios, afirmando que “todo mundo fala que os padre dão nitro pros seminarista pro pau deles num subi e pra um num ficá com vontade de cumê o rabo do outro e é verdade mesmo purque o sujeito qui chupa o pau dos moço quando a muié deli viaja num tem tesão e um dos moço qui vai lá falou comigo qui o sujeito fica mamano e o piru dele nem tchum: fica murcho, de cabeça pra baixo o tempo todo! E o povo tamém fala que os padre senta os minino no colo pra dá aula de piano pra eles e fica passano as mão na bunda e nas coxa deles e ainda fica ameaçano os coitado com o fogo do inferno!”
Os padres, leitores de Karl Marx, contendores do comunismo, e sabedores das nefastas conseqüências da não satisfação do 'furor do interesse pessoal', não retrucaram às ofensas do mulato, e este continuou:
Sem conseguir se conter, o Irmão Nylo apontou o pau de pegar cobras para o carroceiro e gritou:
“PRETO!”
Ao que Cássio, deixando-se levar pelas brincadeiras sem graça do filho, respondeu, aos gritos:
“NAMORADO DO GEREBA!”
E o Irmão Nylo empregou, outra vez, o seu francês:
“VOUS ÊTES UN CHEVAL!”
E Cássio, ainda mais irritado com aquelas conversas de poesia, as mangas curtas da camisa dobradas exibindo os grossos músculos do antebraço, as veias salientes, os lábios enormes ainda tremendo de ira, parou, virou-se, e deu uma última olhada furiosa para os rostos dos padres, que o observavam e, ao se virar para retomar a descida, tropeçou nas próprias pernas, e se estatelou de bunda nas gastas pedras da ladeira.
“Veja, - disse o padre superior apontando para o chão próximo a ele (como se não tivesse levado a sério as diatribes do carroceiro, desconsiderando suas palavras extremamente ofensivas, e deixando-se levar pelo mais elevado mandamento do Salvador: perdoar sempre; perdoar setenta vezes sete!) – você caiu sentado bem ao lado de onde Sua Alteza lmperial, D. Pedro II, desabou no século dezenove. Esta coroa que você vê aí gravada é relacionada com este fato. Se você não fosse tão agressivo, tão petulante, tão desbocado, nossa congregação poderia gravar nestas pedras uma homenagem ao carroceiro que conseguiu matricular seu filho no Caraça e, do mesmo modo que o imperador, você passaria a fazer parte indelével da história da nossa instituição!”
“O filho, se não for padeiro, vendedor de pão, exercerá um profissão baixa: será um barbeiro, ou um sapateiro, ou um operário da construção civil... e de má qualidade. E, se porventura não vier a ser nada disso, certamente terminará seus dias encarcerado!”
“Provavelmente... se Deus não entrar no meio.”
“Mas, talvez (quem sabe?), há pessoas até hoje procurando pela grana do Barão de Cocais e pode ser que ele seja um dos seus herdeiros; caso um dia a fortuna seja de fato encontrada, parte dela ainda chegue à suas mãos e sua família fique em uma boa situação e Padirin chegue mesmo a estudar em um bom colégio!”
“É verdade, meu padre; quem sabe?”
E os padres dão outra gargalhada.
Vendo que Cássio desaparecia na curva lá em baixo, perto da ponte, os padres, mãos enfiadas nos fundos bolsos das batinas, voltaram-se e, cabeças baixas, caminharam, lenta e compassadamente, em direção aos seus aposentos. O irmão Nylo, irado, ainda vermelho, de pé no adro frontal à igreja gótica, arrependido por não haver, por sua conta e risco, dado “uma correção” no atrevido carroceiro, alisava nervosamente o pau de pegar cobras e tentava compreender porque os padres haviam permitido que o preto os destratasse daquele modo. Depois, por sua vez, pôs-se a andar; ia curar sua raiva no caramanchão do outeiro do Calvário.
“Pega fogo! Isso mesmo! É tudo material mais do que ressecado, compadre! Afinal de contas, são duzentos anos! Duzentos! E alguns dos livros da biblioteca têm mais de quinhentos anos. São livros que vieram da Europa, trazidos pelos primeiros padres da Congregação da Missão, que vieram do estrangeiro, da França, pra lecionar no Caraça e os doaram ao seminário!”
Desencostando-se do carro, Cássio deu um sorriso malicioso e começou a dizer:
“Ora, cumpadre, se pega fogo à-toa, eu...”
E parou.
Leandro, intrigado, indagou:
“Você não tá pensando em fazer isso, está, compadre?”
Cássio olhou demoradamente para a construção ao longe, pensativo, e respondeu:
“Se pega fogo à-toa, eu acho que nós vai vortá aqui mais uma vez ainda, compadre!”
..... ..... ..... ..... .....
Vinte e oito de maio de 1968. Quase três horas da madrugada. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço e, lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o santuário do Caraça, quase nada se ouve. Como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé. Há sempre muita coisa para se fazer e o semestre letivo está ainda em sua metade. Há um grande caminho a ser percorrido. Talvez já haja, na casa das Sampaias, algum movimento, porque todas as habitantes da casa ao pé da íngreme subida que dá acesso ao portão frontal do colégio se sentem na obrigação, como elas afirmam, de servir a Deus diuturnamente, porque “a mil chegarás e de dois mil não passarás!”, e “grande é o Seu poder e infinita Sua misericórdia”, e elas querem fazer por merecer um lugar na “Jerusalém Celeste”; não há, porém, movimento externo na casa. Grilos cricrilam num tom baixo, e mesmo as cigarras apenas se arriscam a ciciar, certamente inspiradas pelo ambiente poético. Tostada pelo calor do dia e da noite, a vegetação exala forte e variado perfume, que provoca leve comichão no nariz. Nuvens pequenas navegam no céu de um azul profundo, onde estrelas quase difusas tentam cintilar, lutando contra a forte luz do luar. Sobre os morros do Inficionado e da Carapuça, o excessivo brilho lunar provoca fortes e marchetadas manchas escuras: são as reentrâncias das rochas que a luz não pode alcançar.
O que carroceiro viu ao se aproximar da janela o deixou perplexo: não era para ser verdade! um fogareiro elétrico sobre uma mesa – bem junto da janela - e ligado!; ao lado de dezenas de livros raríssimos, antigos, alguns seculares; material altamente inflamável – e de madrugada! Impossível!
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, tornou-se, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também, histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o Pico da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O colégio ficou dezessete anos quase abandonado, mas não esquecido. O seminário fechou as portas, mas, ao contrário do que sugere o sub-título do livro, o Caraça não morreu; longe disso ('os rochedos não morrem!')! Não havia como; apenas hibernou: em março de 1975, o governador do estado e outras autoridades subiram a serra. Foram inaugurar a estrada asfaltada, patrocinada pelo estado, aspiração dos padres desde a época do incêndio, que substituiria a antiga, de terra. O Caraça não mais funcionaria como colégio; apenas como centro de irradiação espiritual, local de retiros e meditações (que era o desejo primeiro do fundador, Irmão Lourenço de Nossa Senhora), além de local de peregrinação, recolhimento, e de altos estudos culturais, vocação esta que, desde há muito, estava imbricada na vida do estado de Minas Gerais e do país.
E Cássio? Extremamente contrariado (permanecera junto ao seu 'canguiço', mas havia enviuvado), continuou a ocupar o mesmo canto do balcão (agora sem o tambor de querosene) para tomar uns tragos e ruminar suas tristezas e seus ressentimentos, após fazer seus carretos eventuais, onde, aborrecido, veio a saber da recuperação do Caraça, não mais como colégio, mas, como casa de repouso, de meditação, de recolhimento, de oração. Ficou sabendo que o governo do estado asfaltara a estrada, o que facilitava a subida ao santuário, e que inúmeras caravanas subiam a serra – gentes até do exterior! -, pra admirar as belezas da natureza, caminhar nas trilhas, nadar nas cachoeiras, e rezar na ermida, ou mesmo realizar casamentos e festividades na igreja gótica.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora daquelas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, tornou-se membro de um grupo de oração, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Quanto a Turbino, o Padirin de Barão, atingiu a maioridade em Barão de Cocais, mas não foi longe nos estudos. Tentou estudar, mas, não conseguiu (desisto; não tenho cabeça pra essas coisas!), e ainda teve o desgosto de saber que Tânia, a filha da Benza-a-Deus, se amasiara com o mulato DaMata. Não foi carroceiro como o pai e também não voltou a trabalhar na padaria. Ficou flanando pela cidade durante alguns poucos anos, depois, foi pra São Paulo e nunca mais retornou à sua terra natal (à época da morte dos pais, havia muito que partira). Ao contrário do que o padre superior presumira, não foi encarcerado; é um cidadão de bem. Embora não tivesse sido bom aluno no pouquíssimo tempo que ficou no Caraça, o germe dos ensinamentos dos padres estava incutido nele; a semente germinou e ele manteve as regras básicas de comportamento do seminário: pontualidade, obediência, disciplina.
E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar sobre o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo; das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' ('Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!'), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
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