sábado, 21 de janeiro de 2012

HOMENS TRABALHANDO (romance)

HOMENS TRABALHANDO
(romance; segundo livro da série “JORNADA”)
(ainda não publicado)
Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encar­regado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras pá­ginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, per­guntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!


Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície li­xada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquen­tar o almoço dos peões.


Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpin­teiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, ba­tendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digi­tou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra en­xugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!


---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, fa­lando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!


Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos comprado­res dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como au­tônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que mo­rando e trabalhando na mesma cidade.


Sexta-feira! Toda sexta-feira a rotina era a mesma: cachaça, zona e, no sábado de manhã, ressaca. Para outros ainda era: cachaça, zona, cadeia, ressaca. E, ainda para outros, era: cachaça, zona, cadeia, ressaca e, seis dias depois, gonorréia.

Ivair se levantou. Foi ao balcão:
---- Duas pinga! Uma Coca!
O rapaz negro pegou dois copos, chegou-os à torneira do barrilzinho. Pôs sobre o balcão. Abriu a geladeira. Tirou um refrige­rante. Topete pegou um copo, virou na boca. O outro ele levou, junto com a pinga, para Calcanhar de Cebola. A mulher arredou-se mais para beirada do banco e colocou o copo e a garrafa sobre ele. Topete se sentou na outra beirada. Calcanhar de Cebola misturou a Coca com a pinga e começou a beber.

Joãozinho Botina estava vermelho. Ele via a mulher gritan­do na sua cara, Topete gesticulando sem parar, como dois seres disfor­mes. A luz amarela parecia escorrer pelas paredes. Sem pensar muito, ele tirou uma garrucha de sob a camisa. Apontou para qualquer lugar e as paredes pareciam balançar e entortar na sua frente e puxou o gatilho. Depois, virou as costas e saiu desabalado, tropeçando, caindo, corren­do. O rapaz desligou o som.
Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado es­querdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.
Eu e o rapaz do balcão ficamos desnorteados. Algumas pessoas apareceram à porta e eu lhes pedi que arranjassem um carro. O meu cinema acabara! Levamos o Ivair para o hospital. A mulher desa­parecera. O doutor de plantão examinou o ferido. Disse que o caso não era grave. A bala rasgara realmente a carne, donde o sangue, mas não atingira qualquer órgão. O cara ficou na enfermaria. Eu fui sozinho e a pé para casa.

Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara be­bendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.


À noite, nos encontramos. Madalena vestia a mesma roupa da noite anterior. Estava sóbria. Daquele jeito, sem zonzura, pude ver que ela era muito mais feia do que eu achara antes. O cabelo era fino, mas pouco, e muito anelado. Seus dentes superiores eram pequenos demais em relação aos de baixo.
---- Não vai estudar hoje, não?
---- Estudar?! Que idéia é esta?
---- Você me falou ontem. História de pós-graduação...
---- História mesmo! Não sei o que é livro e nem quero sa­ber! Mal e mal sei ler algumas palavras!
Fez silêncio por um instante.
---- Vamos onde?
---- Sabe dançar?
---- Muito pouco.
---- Qualquer coisa serve.


Tirou a roupa. O corpo eu já conhecia: peitos pequenos, caídos; pernas finas, lisíssimas. Abriu as pernas. Demorei a gozar. Ela também estava sem ânimo. Não correspondeu. Eu falei:
---- E a minha proposta?
---- Qual?
---- De você dormir aqui com freqüência?
---- Até os dias em que eu estiver menstruada?
---- Lógico que não! Não quero saber de mulher com a avó atrás do toco me enchendo o saco, não, porra!
---- Quero!
---- Vou lhe dar uma chave. Sempre que vier, não traga ninguém e nem deixe a Zefa vê-la entrando aqui nem saindo; seja a qualquer hora, entendeu?
---- Certo!
---- Ao sair, feche a porta!
---- Vou fazer café.
---- Faça.


Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair cor­rendo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?


Havia já algumas semanas que eu trabalhava no prédio quando, um dia, às nove horas, o benedito chamou. Nem todos ouvi­ram. Alguém subiu pelo guincho, entrando em todos os andares, avi­sando, aos gritos:
---- REUNIÃO NA GARAGEM! VAI ACONTECER UMA REUNIÃO IMPORTANTE NA GARAGEM! O DOUTOR AMORIM TEM UM RECADO PRO PESSOAL NA GARAGEM!
Descemos rápido pro local. Era a primeira vez que o manda-chuva reunia o pessoal, por isso os operários não esperavam boa coisa.

Então, o doutor finalizou;
---- Não se esqueçam do que eu estou dizendo: votem em meu candidato... e digam para suas famílias também! E expliquem lá pra elas tudo direitinho! Direitinho!
Em seguida, os dois desceram dos caixotes, viraram as costas para os operários, tomaram a direção da rampa e desapareceram. O Puxa-Saco e o Coquinho foram atrás.
Os operários ficaram imóveis por um momento, um olhando pra cara do outro. Logo, logo veio o som do benedito sendo acionado. Devagar, nós começamos a subir os andares. Uns pelas es­cadas, outros pelo guincho. Hora de retomar o serviço.
Pouco tempo depois de o doutor ter saído com seu candi­dato, o benedito chamou pro almoço. Nós nos amontoamos em si­lêncio na garagem. Coquinho montava guarda no fim da rampa. Após o almoço, quando todos procuravam um lugar para se esticar, Maneco quebrou o silêncio e trouxe à tona o assunto:
---- Tem gente qui acha qui nóis é retardado!


---- Eu fiquei puto! A velha me enchera o saco, me fizera raiva. E eu lá, de dia, de noite, aos domingos! Ela me chamando de porco, de lerdo, de não sei mais o quê! E agora vinha com palhaçada! Cheguei a boca no ouvido da velha e gritei:
---- VELHA FILHA DE UMA PUTA! MUCHIBENTA! PAGUE SEM RECLAMAR QUE EU NÃO QUERO LHE VER NA MINHA FRENTE NUNCA MAIS! E VÁ TOMAR NO CU!
---- Pedro ficou muito vermelho. A velha ficou pálida. Pas­sou a mão no dinheiro e pagou depressa.
Nós saímos.


Quando parei de falar, notei que Coquinho me observava atento, do lado direito, com a bunda encostada na parede. Não resisti à tentação de provocá-lo. Disse:
---- Bom dia, Coquinho!
Ele se enervou. Desceu os braços ao longo do corpo, abriu a imensa boca babenta e fuzilou:
---- VAI TOMAR NO CU, DISGRAÇADO! FILHO DE UMA PUTA!
Os homens tamparam as bocas com as mãos para esconder o riso, virando as caras para o lado. E ele continuou:
---- PINGUÇO! VAGABUNDO! OCÊ VAI MORRÊ CEDO! OCÊ VAI VÊ! CACHAÇA VAI TE MATÁ!
O benedito assinalava o fim do almoço e eu subi correndo as escadas. Quando estava no quarto andar, ainda podia ouvir a voz do malu­co praguejando, lá em baixo, na garagem.


Toda vez que eu me embriagava na noite anterior, nem tentava disfarçar os sinais da bebedeira, de manhã. Eu não conseguia rir. Não agüentava ficar sem um encosto qualquer e jamais olhava para a frente. Só para o chão. A maior vítima de tudo isso era o trabalho. O rendimento ia a zero. A toda hora eu parava pra descansar e, quando tinha certeza de que o Puxa-Saco não apareceria no meu setor, sentava-me em uma lata de tinta, dobrava os braços sobre os joelhos, deitava a cabeça sobre os braços, e ficava horas a fio sem me mover. Quando era inevitável que fizesse qualquer coisa, eu procurava algum acontecimento bom da minha vida e o ficava relembrando durante o expediente, de modo a não me lembrar da obrigação do dia. Naquela manhã, eu tinha chegado arrasado à obra. Pensei: -- Vou ficar me lembrando, até mais não poder, da trepada mais gostosa que já dei até hoje! Ao chegar perto do guincho, Zé Maria perguntou:
---- Você bebeu ontem?
---- Enchi o rabo!


Eu fora à Zona. Havia uma mulher parada, com os braços cruzados, encostada à porta de uma das muitas casas velhas e decadentes da vila. Era baixa, falsa-loura, meio coroa de olhos castanhos meigos. Estrias profundas sobre os lábios. Em volta dos olhos, mil e um pés de galinha. As pelancas já começavam a dar trabalho. Dentes amarelados postiços aparecendo por detrás dos lábios carnudos. Boca toda lambuzada de baton. Brincos de latão ou alu­mínio. Vestido surrado vermelho. Sapatos também vermelhos, esfolados, bicudos, feios.
---- Quer dar uma trepada de noite inteira comigo, amorzinho? - perguntei.
---- Não posso, querido! - ela respondeu, educada - toda terça-feira um cara dorme comigo. Se pudesse eu ia mesmo!
---- Pois é, eu tô a fim de uma perereca!


Quando coloquei o pé na plataforma, senti a mão de alguém em meu ombro direito. Olhei. Era Coquinho.
---- Zé Antônio tá chamano ocê lá no iscritório.
---- Pra quê?
---- Sei lá!
Entrei no escritório e me sentei à frente do Puxa-Saco.
---- Júlio César?
---- Hein?
---- O que tá acontecendo aí na obra?
---- Hein?
---- Essas conversas que estão saindo aí?
---- Sei não.
---- Como não sabe?! Eu tô sabendo!
---- É? Mas eu não tô!
---- E não é só isto, não!
---- O que tem mais?


Apareceu a mulher. Era baixinha, magra, morena-clara, risonha. Cara chupada. Estava enrolada num roupão de banho. Os cabelos negros e molhados caindo sobre parte de seu rosto não impediam que se notasse sua feiúra. Trepar com ela não era uma perspectiva das mais animadoras, mas, como estava com fome, decidi-me por ir com ela.
---- Você é o cara de quem minha colega falou?
---- Eu mesmo!
---- Vem comigo!


---- Que sociedade, cara?
---- As pessoas importantes!
---- Huumm...!
O meu saco já estava arrastando lá no chão. Logo antes do almoço, aquela bosta vinha me encher a paciência! Era dose!
---- Zé Antônio - eu disse - tudo que eu faço dentro da obra ou fora dela está dentro da constituição. São atos legais. Além disso, a liberdade de expressão é garantida na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
---- Ah, é? Pode até ser, mas o doutor não gosta! E ele não gostará de saber que isto acontece aqui dentro da obra! E o pessoal da cidade, o povo mais antigo, persegue as pessoas que tenham tendências e opiniões contrárias às suas, principalmente políticas!
---- Foda-se! Tá escrito na constituição!
---- Júlio César, posso lhe contar uma história?
---- Real?
---- É!
---- Não! Não me interessa!
---- Mas eu vou contar assim mesmo!
---- Oh, saco!


---- Apareceu aqui uma vez um rapaz...
---- Aqui onde?
---- Na cidade. Apareceu aqui e trabalhou aqui e estudou. Ele tinha as mesmas idéias suas.
O que o sujeito sabia de minhas idéias, porra?!
---- Estudou na universidade?
---- Isso! E vivia criticando a sociedade: fulano é isso, sicrano é aquilo, beltrano é assim...
---- Mas pode! Tá na constituição!
---- ... criticava o pessoal que ia à reunião do Lions...
---- ... e a constituição?
---- ... o pessoal que ia à reunião do Rotary...
---- ... e a constituição?
---- ... os doutores...
---- ... e a constituição?
---- ... os professores...
---- ... e a constituição?


---- Vamos começar? - Gracinha perguntou.
---- Vamos. Você por baixo ou por cima, primeiro?
---- Por baixo.
Gracinha se deitou de costas e abriu as pernas. A mulher me pegou no meio das coxas. Passava os membros lisos, lisos, entre­laçados em volta de meu tórax, para cima e para baixo. A gente se amava.
---- Ai, Júlio César, sua pica é gostosa demais! Ai! - gemia ela, nos meus ouvidos.
Nós trocamos beijinhos, de olhos fechados, na penumbra do quarto. Só o abajur estava aceso. Quando eu a pe­netrava, ela firmava a sola dos pés sobre o colchão e levantava o corpo. Trazia a boceta para encontrar o meu pau. Nós ficamos nos socando até que eu a empurrei com força sobre a cama. Ela gozou e gemeu. Me apertou com mais força ainda. Me passou vagarosamente a mão pela nuca. Eu desfaleci em cima dela. Fiquei exausto, com os dois braços estendidos ao longo de sua cabeça. Ficamos, depois, dei­tados em silêncio. Ela fumou um cigarro. Fiquei de barriga pra cima e de olhos fechados. Lá de fora, vinha o barulho do vento soprando as folhas das bananeiras, do farfalhar das folhas das bananeiras, das águas do rio que passava logo atrás da casa se chocando contra as pedras do leito.
Após algum tempo de descanso, recomeçamos.
Eu disse recomeçamos; na verdade, foi Gracinha quem o fez. Ela ficou de lado na cama. Eu continuei de olhos fechados. Ela, então, começou a me alisar o rosto. Mordiscou-me a ponta do nariz. Foi descendo com as mãos pelo meu peito, enfiou o dedo indicador no meu umbigo. Abri os olhos. Seus peitos estavam na altura de minha boca. Apertei-os com carinho. Mordi-lhes os bicos com os lábios pra não doer. Gracinha continuava me passando a mão. Outra vez, meu pau endureceu. Gracinha o segurou, ficou olhando em silêncio pra ele por um momento, depois, disse:
---- Hummm, grande!


---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondi­am!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais indepen­dente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada? ---- Então, entrou um prefeito na prefeitura. Sabe o que ele fez?
---- Não! E nem me interessa!
---- Pois ele proibiu o povo da cidade de conversar com o rapaz!
---- O QUÊ? - eu verdadeiramente me interessei pela conversa do Puxa-Saco - é mentira isso!
---- É verdade!
---- É mentira!
---- É verdade! E proibiu o povo de dar serviço pro cara!
---- Ele trabalhava de quê?
---- Sei lá! O prefeito queria fazer ele sair da cidade!
---- Mas isso não existe!
---- Como não existe? Aconteceu aqui!
---- Como foi o nome dessa punição?
---- Isolamento! O rapaz foi isolado socialmente!
---- Mas num regime democrático isto não existe!
---- Existe! Pois se todo mundo isolou o rapaz! Dizem que ele entrava em bares, conversava com alguém, mesmo com o dono, ninguém respondia!
---- Meu Deus! - eu exclamei - e a constituição?
---- ... entrava no alojamento da universidade, se dirigia a alguém, algum colega... ninguém respondia...
---- ... e a constituição?
---- ... entrava na biblioteca da universidade, pedia algum livro... os funcionários o ignoravam completamente!
---- ... e a constituição?
---- ... e ele ia ao departamento do curso que fazia, falava com os professores, os sujeitos abaixavam as cabeças... e não respondi­am!
---- Nossa! Mas isso não pode! Quanto mais se estuda, mais indepen­dente se fica!
O moreno ergueu o dedo indicador direito e, com ar professoral, afirmou:
---- Nada disso! Quanto mais estudado, mais obediente, mais educado!
Eu estava achando aquele papo realmente inacreditável!
---- Mas que bando de carneirinhos! E a constituição, cara, pra que ela foi votada?


O Puxa-Saco ficou olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra cara do Puxa-Saco com cara de não-tô-nem-aí.
Então, depois de termos ficado alguns minutos nos analisando, eu lhe perguntei:
---- Escute, esse sujeito que inventou essa lei especial de isolamento pro rapaz era o prefeito da cidade, você disse?
---- ERA! - gritou ele.
---- Mas isso é ditadura, moço! O isolamento era um siste­ma usado no comunismo da extinta União Soviética. Os dissidentes, os linguarudos, apodreciam nos campos gelados da Sibéria!
(As coisas não apodrecem no gelo, mas, o bobo provavelmente nem sabia disso!)
---- NÃO INTERESSA! ELE ERA O PREFEITO!
---- Mas como o pessoal da cidade votou nele?
Eu perguntei e fiquei encarando o Puxa-Saco. Ele ficou, durante algum tempo, olhando pra mim com cara-de-bosta. Eu fiquei olhando pra ele com cara-de-não-tô-nem-aí.
---- Como? - insisti.
O Puxa-Saco, então, ficou sem graça e virou a cara-de-bosta pro lado da estante encostada na parede à sua direita e não me respondeu. Eu, então, me lembrei da reunião na garagem: a pressão! Era de praxe!


Eu nunca mais vi Gracinha. Algum tempo depois, alguém me disse que ela saíra da Zona e se juntara com um velho grã-fino da periferia da cidade. E que ela passara as mãos nos pertences do velho e até o chapéu panamá legítimo que ele usava pra cobrir a careca tinha desaparecido. E que ela xuxara a perereca com tanta fúria no velho que ele entortara o esqueleto pra frente e pro lado e andava com dificuldade, arrastando os pés e trombando pelas paredes e estava com voz de taquara rachada, falando guinchando como um rato quica. E que, mesmo quando estava usando dentadura, a boca muchibenta do velho ficava chupada pra dentro, parecendo um cu de galinha.
A mulher acabara com o cara na cama!


Aquele dia amanhecera muito chuvoso. Olhando-se lá de cima, da cobertura do prédio para a rua, quase nada se podia ver por causa da cortina de água. O riacho atrás do prédio tinha transbordado e a água já ameaçava invadir a garagem. Trazer material do almoxarifado para a construção estava difícil: a chuva era intermitente e a lama cobria todo o chão. A plataforma do guincho estava que puro barro e, pra complicar, vários homens haviam faltado.
Parecia que o Esmeraldo escolhera logo o pior dia pra chegar ao serviço quase caindo. Os olhos vermelhos como olhos de pomba. A carapinha, mais ouriçada do que nunca. Seu cheiro de suor era penetrante e seu chulé estava deveras incomodando. Provavelmente não dormira à noite. O bafo de cachaça que exalava deixava notar que passara a noite em claro, talvez no jogo de baralho e, indubitavelmente, na pinga. Para testá-lo, eu disse:
---- Esmeraldo, traz água lá de baixo pra mim?


Lá estava o Esmeraldo, na sala de chão de terra batida, esticado no caixão. Um lampião a querosene empesteava o ar com um cheiro horrível. A fumaça fedia. Finalmente, ele tirara as botas e lavara os pés. Tinham lhe calçado meias e cortado a barbicha desgrenhada. Uma tira de pano amarrada em volta da cabeça conservava-lhe a boca fechada, escondendo os pedaços de dentes. Duas velhas vestidas de chita montavam guarda, sentadas em tamboretes. Rezavam o terço.
O pessoal, à vontade, bebia cachaça e ria às gargalhadas no terreiro. Encostei-me a um mourão da coberta, sem vontade de ficar ali e arrependido de ter vindo. Uma negra de uns trinta anos apanhou uma garrafa de pinga e se aproximou de mim com um copo na mão.


---- Coitado do Esmeraldo! - eu filosofei - Nasceu pobre, ficou miserável, carregou massa, carregou tijolos, carregou tábuas, carregou pedra, foi explorado, foi humilhado, foi massacrado, caiu do andaime, se fodeu - morreu! Vai ser enterrado neste fim de mundo, no meio do mato, onde nem luz nem estrada tem! Ninguém vai saber que ele existiu!


Puto, certo dia ele tirou a calça e a cueca dentro da obra onde trabalhava, durante o expediente, e ficou girando sobre si mesmo e gritando:
---- MARINETE, FILHA DE UMA PUTA! MARINETE, FILHA DE UMA PUTA!
O engenheiro, o patrão, chegou na hora! Empertigado! Doutoral! E trazia a esposa junto! Quando eles entraram no cômodo, Periquito parou. Ficou de pé na frente do doutor, sorrindo sem graça, com o peru murcho apontando pra baixo. A mulher do patrão fingiu seriedade, mas ficou olhando gulosa pro pau do rapaz. O doutor, vermelho, gritou:
---- QUE BONITO HEIN, VAGABUNDO? EU NÃO O MANDO EMBORA AGORA POR CAUSA DAS DÍVIDAS QUE VOCÊ FEZ PARA IMPRESSIONAR AQUELA PROSTITUTA!
Lixando, lixando! Era dose, mas fazer o quê?


Cleir se ajeitou de costas e abriu as pernas. Fábio tinha intimidade zero com aquilo - boceta - mas, mesmo assim, tinha alguma teoria de ouvir falar. Sabia que o hímem das moças - que os homens desbocados da obra chamavam de cabaço - oferecia resistência nas primeiras vezes; que havia sangramento no seu rompimento; que as mulheres sentiam um misto de prazer o gozo no ato do amor, na primeira trepada, e que o clitóris - que os homens desbocados da obra chamavam de crica ou grelo - costumava ficar duro e saliente, apontando pra fora da vagina - que os homens desbocados da obra chamavam de xoxota ou trem bão.


---- Aquela mulher minha é uma vagabunda, porra! Ficou namorando comigo bonitinho, parecendo uma menininha, mas só na noite de núpcias descobri que ela não era mais virgem! Tava com a boceta arrombada, a vagabunda! Filha de uma puta! Safada!
Alguém sempre falava:
---- Mas que idéia foi essa sua de deixar pra enfiar o peru só no casamento? A gente come é antes, logo no começo do namoro! Não se usa isso de ficar pajeando a noiva mais não!
E Fábio gritava:
---- VOCÊ É UM SEM-VERGONHA, PORRA


Quando alguém lhe indicou um doutor que estava saindo de carro com Cleir, Fábio, uma noite, o esperou até tarde, na garagem do prédio onde ele morava:
---- Doutor, o senhor é meu amigo! Larga a minha mulher! Não faz isso comigo, não! Eu morro!
O doutor se fez de desentendido. Gentilmente, ele falou:
---- O que é isso, rapaz? Refresca essa cabeça! Não pensa uma coisa absurda dessa, não! Há quanto tempo nós nos conhecemos? Eu fui amigo de seu pai, de sua mãe! Eu conheço sua família!


---- Pelo amor de Deus, não vendam pinga pro Fábio, não!
Num fim de ano, Cleir fugiu com o doutor. Fábio quase morreu. E quando alguém lhe perguntava:
---- Fábio, onde tá sua mulher?
Ele respondia:
---- Tá dando igual galinha, lá na capital!

Os homens estavam todos sentados, um ao lado do outro, no meio-fio. Cheguei cumprimentando:
---- 'Dia, Capivara.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Ladico.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zefino.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Luiz.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Quimba.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Zé Maria.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Periquito.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Juca.
---- 'Dia.
---- 'Dia, De Noite.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Chico Sanfona.
---- 'Dia.
---- 'Dia, Capacete.
---- 'Dia.
Era muita gente! Ou, como preferia o Puxa-Saco, estava cheio de ninguém ali!

Eu demorei a observar que, embora estivesse quase na hora do almoço, todos os homens estavam sentados, sem trabalhar, até àquela hora. Em condições normais, eles já estariam sujos, suados, fe­dorentos.
---- Por que vocês não estão trabalhando?
---- Sabe ainda, não?
---- Não!
---- Foi o patrão!
---- O que aconteceu?
---- Morreu!
---- O quê!?
---- É!
---- Onde?!
---- Lá na capital!
---- Nossa!
---- Morreu na fila de banco!
---- De quê?
---- Do coração!
---- E a obra?
---- A obra, pára!

Eu fiquei parado, calado, olhando para o prédio, com as mãos nos bolsos das calças. Os homens continuaram sentados, em si­lêncio, esperando não sei o quê.
A manhã era muito clara, a luz reverberava na superfície das coisas. Parecia que alguém pendurara um grande pote de ouro, cheio de raios, luminoso, lá no alto, no céu.

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